A operação turca na fronteira com a Síria

13-10-2019

"Operação Primavera de Paz", também denominada "Fonte de Paz", é mais um capítulo na guerra da Síria que assola o país desde 2011. A invasão turca tem o potencial de alterar, mais uma vez, o mapa político e étnico na região. 

A Turquia está, desde 9 de Outubro, empenhada no combate a posições curdas da Administração Autónoma do Norte e Leste da Síria (AANLS), também denominado de Curdistão (de curdos) Sírio, assim como a respectiva ala armada das Forças Democráticas Sírias (SDF - Syrian Democratic Forces). Foi na referida data que a Força Aérea iniciou os primeiros ataques aéreos, atingindo alvos fronteiriços, incluindo na cidade de Ras al-Ayn.

A operação, internacionalmente condenada por ser uma violação do direito internacional, da soberania e da paz, visa, nas palavras de Erdogan, corrigir a "situação demográfica no norte da Síria". 

Turcos actuam devido à ligação dos curdos sírios com o terrorismo

Desde o início da intervenção americana na Síria, que Ancara repetidamente pediu que não se apoiasse os curdos no combate contra o regime de Bashar al-Assad, não por que este último fosse seu aliado, pelo contrário aliás, mas porque para os turcos, o Curdistão Sírio é constituído por terroristas do "Partido dos Trabalhadores do Curdistão" (Parti Karkerani Kurdistan - PKK).

Criada em 1974 por Abdullah Ocalan, a organização curda tornou-se rapidamente reconhecida pelos seus sangrentos e violentos ataques a membros de grupos rivais e dirigentes locais que fossem a favor do governo turco, lutando desde 1984 por um Estado Autónomo no sudeste turco. 

Foi nesses anos que o PKK realizou os seus primeiros ataques contra o Exército turco que, em retaliação desencadeia uma vasta operação contra zonas curdas, levando milhares de civis a abandonarem as suas aldeias. Cerca de 37 mil pessoas, entre civis, militares e rebeldes, morreram nos 15 anos seguintes de rebelião.

Durante anos limitado a acções no sudeste montanhoso, o PKK começa então nos anos 90, a levar a cabo operações de guerrilha urbana, tendo como alvo preferencial hotéis e zonas turísticas. Em 1993 e 1995, após ter executado ataques por toda a Europa, atingindo representações diplomáticas e pontos de interesse turco no exterior, entra para a lista de organizações terroristas dos Estados Unidos e da União Europeia.

Obus do exército turco posicionados na fronteira turco-síria, perto da cidade de Akcakale, no sudeste da província de Sanliurfa, Turquia, 7 de outubro de 2019.
Obus do exército turco posicionados na fronteira turco-síria, perto da cidade de Akcakale, no sudeste da província de Sanliurfa, Turquia, 7 de outubro de 2019.

Abdullah Ocalan é capturado no Quénia em 1999, levando ao enfraquecimento da organização e à fuga de muitos membros para o Curdistão Iraquiano, região internacionalmente protegida e onde o líder iraquiano, Saddam Hussein, ia aos poucos perdendo controlo.

Abdullah é condenado à morte mas a pena é rectificada para prisão perpétua depois da Turquia decretar, em 2002, o fim da pena de morte no país. Ocalan chega mesmo a pronunciar-se a favor do fim da luta armada e pede que o grupo trabalhe pelas suas reivindicações unicamente no espectro político.

A mensagem do líder é acolhida pela organização que, nos congressos de 2000 e 2002, se compromete a defender os direitos da minoria curda por meios não violentos, anunciando uma trégua unilateral, embora recuse sempre desarmar-se e a renunciar ao direito de "auto-defesa".

Em 2004 a situação muda de figura, com a ala mais radical a tomar controlo da organização e a anunciar o fim do cessar-fogo. Dezenas de bombas explodem na região Oeste do país durante os anos seguintes, com particular incidência em Istambul, cidades costeiras e não só, provocando centenas de mortos, entre eles vários estrangeiros. Operações de grande envergadura são retomadas em 2007 e as investidas turcas contra o PKK têm sido recorrentes desde então, não só no Iraque, como também na Síria. A 27 de Maio, aliás, inseridos na "Operação Garra", militares turcos investiam no norte do Iraque contra posições do PKK. Desde o aumento da influência curda, Ancara tem também realizado vários ataques em território sírio, como forma de manter um mínimo de "status-quo".

Os avisos marginalizados

Há muito que o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ameaça mandar tropas para o noroeste da Síria, para limpar a fronteira dos combatentes curdos que a Turquia considera uma séria ameaça à sua segurança.

Após meses de ameaças e anos de avisos, um acordo foi fechado em Agosto de 2019 entre a Turquia e os Estados Unidos que apoiam as Forças Democráticas Sírias nos combates contra forças do Estado Islâmico e do regime de Bashar al-Assad. O acordo estabeleceu uma Área Segura no norte da Síria, com o intuito de dissipar as tensões e abordar as "preocupações de segurança da Turquia" por meio da monitorização conjunta entre os lados envolvidos (FDS, militares turcos e americanos).

Recebido favoravelmente pelos Estados Unidos e os seus aliados curdos, o acordo rapidamente se revelou não satisfatório para Ancara. Os turcos queriam expandir a área coberta pela "Área Segura", por meio de maior controlo turco e da possibilidade de utilizar a região para realojar alguns milhões dos milhões de refugiados de guerra que na Turquia encontraram refugiu e que são representativos de uma genuína crise. As intenções são ignoradas tanto pelo SDF como pelos parceiros americanos.

Pese embora o SDF tenha desmantelado as suas fortificações e o YPG (Unidade de Protecção Popular), também com conexões curdas, procedido à retirada das suas unidades da referida zona, as tensões continuaram a aumentar, com mais demandas turcas, igualmente ignoradas.

Como consequência, a Turquia passa para a hostilidade aberta, ultimando as Forças Democráticas Sírias e entidades similares curdas. O ultimato foi ignorado e a Turquia anuncia o "fim do prazo". 

Motivada pela recente retirada americana, anunciada por Donald Trump pouco tempo antes, Ancara vê a sua oportunidade para cumprir os seus objectivos. 

Os refugiados

Outra grande motivação de Erdogan, é sem dúvida usar a zona, de 30 quilómetros de largura e 480 de comprimento, como local para solucionar o seu problema de refugiados. Depois de ter o espaço controlado, Ancara quer aí instalar localidades, casas, escolas e hospitais para 2 milhões de exilados, mas os grupos de Direitos Humanos duvidam que tal seja possível.

Dúvida reforçada pelo facto de que, paralelamente às "boas intenções turcas", Ancara também informou que o país já gastou mais de 40 mil milhões de dólares no problema. Sem o suporte das nações europeias, já requisitado pelos turcos mas aparentemente negado, tal hipótese torna-se ainda menos viável. 

Se a Turquia não recolher o apoio que considera necessário e legítimo, legítimo em parte por ser aliada do ocidente e membro da OTAN, ameaça como consequência abrir os "portões" para o resto do continente, situação que a União Europeia veria como uma autêntica catástrofe.

Campo de refugiados de Nizip, em Gaziantep, perto da fronteira entre a Turquia e a Síria.
Campo de refugiados de Nizip, em Gaziantep, perto da fronteira entre a Turquia e a Síria.

As Forças Democráticas Sírias, tentam há anos aumentar o controlo sobre o território no norte e leste da Síria, ajudadas pela coligação liderada pelos Estados Unidos contra o Estado Islâmico. Curdos e aliados criaram então órgãos próprios de governo, fazendo da zona uma região autónoma e, por isso, uma espécie de país curdo. 

No entanto, com o avanço militar da Turquia, tudo pode alterar-se muito rapidamente. A maior preocupação dos aliados da Turquia é que uma grande afluência de sírios árabes sunitas numa região maioritariamente curda mude a demografia da região. 

O ataque também pode, para além de provocar uma nova onda de deslocados, estimular o reaparecimento do Daesh (Estado Islâmico), cujos muito dos membros se encontram sob cativeiro da SDF ou "adormecidos" à espera de uma situação propícia.

Sem apoio americano, curdos tentam recolher assistência em antigos inimigos

Desde o ano passado confrontados com a perspectiva da retirada dos EUA, os curdos iniciaram negociações com Damasco, capital do regime de Bashar al-Assad, para um eventual posicionamento de forças sírias, assim como dos seus aliados russos, de forma a criar uma zona de exclusão digna de dissuadir o avanço turco. As negociações não avançaram, mas podem agora seguir em frente mediante a perspectiva do regime de reaver o controlo da dita região por meio de acordo com as forças do "Curdistão Sírio".

No entanto, obter o controlo do território pode ocorrer de qualquer das formas, visto que com a SDF ocupada, Bashar al-Assad, apoiado pela Rússia e Irão, tem caminho livre para conquistar o que a Turquia não consiga. 

Militares russos na Síria
Militares russos na Síria

A Rússia diz que a Turquia tem o direito de se defender, mas o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse na segunda-feira que a integridade territorial da Síria deve ser preservada e que todas as forças militares estrangeiras "com presença ilegal" devem deixar a Síria. Na prática, Rússia e Irão têm legitimidade para estarem presentes na Síria, pois encontram-se ali a pedido do governo de Damasco.

Os Russos também tampouco são inimigos da Turquia, sendo que a proximidade entre as duas nações tem causado até alguns incidentes diplomáticos com Washington. Moscovo inclusive vendeu armamento que a Casa Branca repetidamente pediu que Ancara não adquirisse, forçando os americanos a tomar medidas punitivas

Ancara ataca americanos por engano

Na passada sexta-feira, militares das Forças Armadas dos Estados Unidos que ainda se encontram no nordeste da Síria, foram alvo de um ataque de artilharia da Turquia. O ataque, já confirmado pelo Pentágono à Agência Efe, não deixou vítimas e ocorreu nos arredores da cidade de Kobane, fora da "Área de Segurança" que a Turquia quer controlar.

O bombardeamento não caiu bem junto de Washington que, de forma a evitar uma reacção defensiva, já ameaçou os turcos para evitarem que tal se suceda. 


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