Análise: Africa´s forgotten war

05-02-2020

"AFRICA'S FORGOTTEN WAR" é o título do recente artigo de Al Venter, na qual este aborda o conflito na República Centro-Africana. 

Al Venter, um dos autores e investigadores militares anglo-saxónicos mais reconhecidos do mundo, escreveu sobre o conflito na República Centro-Africana (RCA), com especial atenção para os meios aéreos ao dispor da missão das Nações Unidas naquele país, assim como nos militares portugueses que têm um papel fundamental na manutenção e, de certa forma imposição, da paz ​naquele território.

Dividido em duas partes, são várias as referências ao trabalho dos militares portugueses, destacando-se, mas não se restringindo, a interoperabilidade com helicópteros senegaleses e restantes meios aéreos ao serviço das Nações Unidas, assim como da importância destes para o sucesso da missão.

Qualquer português, sente um orgulho inabalável quando o autor diz, por exemplo, que "solicitou a incorporação numa das Unidades de combate da ONU", seguido do termo "180 craques portugueses das Tropas Paraquedistas", com "reconhecida fama previamente alcançada no Afeganistão". Al Venter cita ainda o ex. Chefe do Estado-Maior da Defesa britânico, Sr. David Richards, que quando comandou as forças da coligação em Cabul, Afeganistão, disse que os portugueses eram a sua "best fighting force", ou em português, "a sua melhor força de combate".

"I give those fellows impossible tasks and they follow my orders to the letter... they are tough, forceful and organised." General Balla Keita 

"Eu dou-lhes tarefas impossíveis, mas eles seguem as ordens à risca... são rijos, corajosos e organizados". General Balla Keita, comandante da Força das Nações Unidas da Missão Multidimensional Integrada de Estabilização das Nações Unidas na República Centro-Africana

Mas continuemos a abordar o que foi escrito, que estando em língua estrangeira, sempre acaba por ficar mais acessível. Al Venter apresenta-nos com uma realidade bem mais preocupante do que podemos imaginar quando pensamos no conflito na RCA, referindo a presença de mercenários e de russos a instruir rebeldes, cujo armamento é cada vez mais moderno, pesado e letal. Al Venter não mede as palavras, acusando Moscovo, Pequim e outros eventuais governos de apoiar e financiar grupos armados por toda a África.  

 Mi-35P do Senegal na RCA / Foto de Al J.Venter / www.key.Aero
Mi-35P do Senegal na RCA / Foto de Al J.Venter / www.key.Aero

O autor refere que o Brigadeiro-General francês, Eric Peltier, chefe da Missão Europeia de Treino em Bangui, declarou que russos, considerados mercenários, com conexões a Moscovo, constituem forças "que variam de cinco a várias dúzias de homens por unidade de combate", podendo totalizar "uma série de unidades irregulares que somam várias centenas de homens" que teriam inclusive tentando abordar o próprio, abordagens estas evitadas por Peltier, porque este "não lida com mercenários".

Armamento de ponta, "quase todo novo", tem sido fornecido a forças hostis" pela Rússia ou China", encaminhado em contentores por via de rotas pelo Sudão e/ou Chade. A "ausência geral de estradas" e as pobres condições das que existem nos países referidos, torna "altamente provável" que tais transferências não poderiam ocorrer, a menos que "governos relevantes" estejam a caluniar com os rebeldes. Peltier sugeriu ainda que a RCA "tem seis vizinhos com jogos políticos no conflito", afirmando também ainda que "quase todos os fundos que suportam grupos armados, são de proveniência de vários estados árabes", mas embora os tenha listado, terá pedido "especificamente que detalhes não fossem publicados".

Outra fonte da mesma missão disse que "quase todos os grupos continham nos seus arsenais viaturas armadas com armamento pesado", capaz de infligir dano potencial às aeronaves da ONU ali presentes. "Era do conhecimento geral, declarou a fonte, que vária aeronaves da ONU a operar na RCA, foram alvo destas armas", incluindo helicópteros paquistaneses e senegaleses. 

A Força de Reacção Rápida (FRR) portuguesa, refere o artigo, tem se distinguido em várias dezenas de contactos com o inimigo durante os últimos três anos, contra um adversário móvel e com clara resiliência. "A unidade não sofreu uma única fatalidade", como resultado de combate directo, "com apenas um punhado de feridos, nenhum de forma crítica". 

O comandante da missão das Nações Unidas naquele país, General Balla Keita, diz em entrevista que a sua confiança para com a força portuguesa não poderia ser maior, afirmando que estes são para ele o seu "pelotão de Ronaldos". O mesmo não diz, contudo, dos políticos locais, afirmando: - "Eu não confio neles (políticos), e como poderia, quando a maioria até já transferiu o seu dinheiro e mandou as famílias para a Europa? Não são o tipo de pessoas que tem o interesse da nação no coração."

Operacionais portugueses na RCA / Foto de Al J. Venter / www.key.Aero
Operacionais portugueses na RCA / Foto de Al J. Venter / www.key.Aero

Pessoal contratado, ou seja, mercenários, é por vezes parte constituinte das fileiras dos cerca de "14 grupos armados diferentes, ainda activos na RCA", acampados inclusive "lado a lado" com os rebeldes, ainda que por vezes em "aquartelamentos diferentes". De nacionalidade maioritariamente russa, estes são "informados por indivíduos" que de alguma forma "conseguem acesso a informação estratégica" das operações militares da ONU, permitido a sua fuga prévia, especialmente quando empenhada a FRR portuguesa, unidade que, de acordo com o que se pode constatar, é especialmente evitada por estes mercenários russos.

O artigo refere a recente intervenção levada a cabo em Setembro do ano passado pelas forças portuguesas, que aliás o Portugal Defense News na altura abordou, em que Balla Keita despachou o seu "pelotão de ronaldos", equipados com "os seus mais de 50 veículos de combate, a maioria Humvees", contra um dos mais activos grupos armados da RCA, que estavam a aterrorizar uma vasta área adjacente à fronteira com a República dos Camarões. Durante esta "relevante operação de nove dias", refere o artigo, os militares envolvidos "viram um grande volume de acção, desdobrados como resposta do general (Balla Keita) ao crescente número de elementos armados apoiados por instrutores russos, nos arredores de Koui", sub-prefeitura de Ouham-Pendé, "cerca de 25 quilómetros a Oeste de Bocaranga, uma das maiores cidades da região".

Al Venter destaca ainda "as peculiares circunstâncias" em que "o solitário helicóptero de ataque Mi-24, do Senegal, foi abatido durante esta missão", com a respectiva "tripulação" a vir "a falecer no segundo dia de operações". O "comunicado oficial da ONU", afirma o autor, "refere que o Hind (designação da NATO para o helicóptero de fabricação russa, Mi-24) sofreu dificuldades técnicas, no entanto, a aeronave conta com dois motores, sendo extremamente raro que ambos sofram uma falha crítica."

Pessoal no quartel-general em Bangui, "terá falado mais abertamente" sobre as circunstâncias em "que o helicóptero terá sido abatido". Al Venter cita um "oficial", que lhe disse: "Não entramos em detalhes sobre este incidente, porque não precisamos da dar ao inimigo nenhum tipo de vantagem (ou recompensa) psicológica". Destaca ainda o facto de que, "ao contrário do sucedido em combates anteriores", os rebeldes passaram a empenhar "considerável tempo e esforço a conceber emboscadas em forma de L, perfeitamente retiradas do manual", cuja forma de conceber só poderá ter "origem nos instrutores de Moscovo".

O autor de "Africa´s forgotten war", salienta também um "interessante comentário" que foi "feito por antigo oficial da ONU, um coronel aposentado das Forças Especiais da África do Sul, que serviu durante anos em diversos conflitos, nomeadamente na Somália, Afeganistão, Sudão e outros. Tendo-lhe sido realizado o briefing da missão da força portuguesa na RCA, declarou que "os portugueses demonstraram pela primeira vez o que todos os militares, de todos os estados membros (da Organização das Nações Unidas), devem fazer em tais circunstâncias". 

"De acordo com a minha experiência pessoal, a ideia que tenho é a de que os pacificadores da ONU raramente contam com a pro-actividade, nem a disposição, para se envolverem em combate, pelo simples motivo de operarem mediante demasiadas restrições dos seus governos, assim como pelo facto de que a maioria das forças está mal equipada, treinada, pobremente disciplinada e contando com fraca disponibilidade de combate." (...) "Os portugueses demonstraram pela primeira vez o que todos os militares, de todos os estados membros (da Organização das Nações Unidas), devem fazer em tais circunstâncias".  - Antigo oficial da ONU, Coronel aposentado das Forças Especiais da África do Sul, que serviu durante anos em diversos conflitos, nomeadamente na Somália, Afeganistão, Sudão e outros.

Al J. Venter / www.key.Aero
Al J. Venter / www.key.Aero

A parte II do artigo centra-se talvez ainda mais no espectro dos meios aéreos, referindo a por vezes insuficiente prestação dos meios senegaleses, mas em contrapartida reconhecendo o profissionalismo das tripulações paquistanesas. 

Os portugueses terão criticado a eficiência dos Hinds senegaleses, afirmando que quando entram em combate, ficam desprovidos do apoio desejado, porque as aeronaves se mantêm a pairar sobre a acção a cerca de 1.219 metros, incapazes sequer de visualizar devidamente o que se passa no solo. Um facto "desconfortante", é que "as tripulações do Senegal tão pouco colaboram com as indicações para voarem em níveis de altitude mais baixos e práticos".

Em contraste, "o pessoal da Força Aérea do Paquistão, é bastante mais profissional nas tarefas operacionais". O comandante do Hip (nome de código da OTAN para o Mi-17 de fabricação russa) paquistanês envolvido na referida operação de Setembro, esteve aliás envolvido em diversos teatros de operações, tendo sido este o homem aos comandos do Mi-17 que assumiu as responsabilidades de apoio aéreo, aquando do abate da aeronave senegalesa nesse mesmo mês. O "Mi-17, com recurso às suas metralhadoras laterais", manualmente manuseadas, "manteve o inimigo de cabeça baixada de forma consistente, providenciando cobertura a partir de alturas por vezes pouco acima da árvore mais próxima." Notar o facto destas aeronaves levarem normalmente a bordo militares portugueses que, em colaboração com os membros da tripulação, aplicam e direccionam o fogo contra o inimigo. 

As deficiências de prestação não se restringem aos senegaleses, de acordo com Balla Keita, problemas similares são apresentados pela grande maioria das forças, de diferentes nacionalidades, que integram a missão. O General não só terá afirmado que a maioria dos soldados estavam mal preparados, como terá dito que estes nem sequer eram capazes de se fazerem notar quando ameaçados pelos grupos armados. Um outro oficial da ONU terá dito que "a maioria só ali estava pelo cheque de pagamento", com a maioria a admitir que não estava ali para lutar, nem ali nem em nenhum país africano.

Vista da posição da metralhadora pesada de um dos Humvees´s portugueses, com um Mi-35P (Mi-24) ao fundo / Al J. Venter / key.aero
Vista da posição da metralhadora pesada de um dos Humvees´s portugueses, com um Mi-35P (Mi-24) ao fundo / Al J. Venter / key.aero

A situação em África tem sofrido considerável alteração. Se no passado se acreditava que, por exemplo no Mali, os franceses estavam finalmente a ganhar algum controlo sobre os terroristas ligados à Al-Qaeda, tal revelou-se o oposto, na medida em que a situação tem piorado muito rapidamente com o amontoar de baixas durante o último ano, e com considerável alastramento por todo o continente. O auto-proclamado Estado Islâmico está agora presente em partes da República Democrática do Congo, Ruanda e Uganda, tendo anunciado as suas primeiras vitórias nessa região em meados de 2019. Adicionalmente, conforme também aqui já referido, o movimento terrorista al-Shabaab tem estado activo na região norte de Moçambique durante os últimos dois anos.

O Reino Unido reforçou o seu envolvimento recentemente, com o desdobramento de três helicópteros Chinook para apoiar os franceses no Mali. Portugal também vai reforçar a presença militar naquele país, com um meio aéreo e mais 70 militares. Desde 2013, aliás, que Portugal está empenhado numa missão da União Europeia neste território, que consiste na formação e aconselhamento das forças locais, assim como numa missão da ONU, para a qual já não é a primeira vez que desdobra meios aéreos, nomeadamente em 2017, altura em que a Força Aérea Portuguesa ali empenhou um C-130 e 66 militares. Portugal tem neste momento 19 operacionais no Mali, 17 dos quais na missão de Treino da União Europeia e dois na missão integrada das Nações Unidas (MINUSMA) de estabilização do país.

Na RCA, Portugal está presente desde o início de 2017, actualmente com a 6ª Força Nacional Destacada neste teatro de operações, sendo o actual contingente composto por 180 militares, maioritariamente tropas especiais Paraquedistas do Exército Português, integrando ainda militares de outras unidades do Exército e Controladores Aéreos Avançados da Força Aérea, no quadro da missão das Nações Unidas, cujo 2.º comandante é o major-general Marcos Serronha. Tem também militares na Missão Europeia de Treino Militar-República Centro-Africana, cujo 2.º comandante é o coronel Hilário Peixeiro.  



Para aceder ao artigo "AFRICA'S FORGOTTEN WAR", aparentemente apenas disponível em inglês, pode fazê-lo por meio da seguinte ligação para página do Estado-Maior-General das Forças Armadas:

Em caso de erro, pode ainda tentar ligação directa à parte I e parte II do referido artigo, igualmente disponibilizada pelo EMGFA:

www.key.aero / https://www.key.aero/article/africas-forgotten-war-part-one


artigo sujeito a edição...

Imagens: Al Venter / key.aero / 

Portugal Defense News ...and global

Vídeo da ONU destaca ação da Força de Reação Imediata Portuguesa na República Centro-Africana

A Organização das Nações Unidas (ONU) partilhou esta semana, na sua página do Youtube dedicada à Missão na República Centro-Africana, um vídeo que retrata a ação dos militares portugueses em missão de paz naquele país.

Neste vídeo é reconhecido o elevado profissionalismo da força portuguesa, sedimentado na realização de treinos diários, que permitem aos militares lusos estarem sempre preparados, psicológica e fisicamente, para qualquer empenhamento.

Militares Portugueses envolvidos em mais confrontos com grupos armados na República Centro Africana. Trata-se da 6ª Força Nacional Destacada para aquele teatro e, tal como as anteriores, não escapa aos combates.

A 6ª Força Nacional Destacada na República Centro Africana (RCA), actualmente constituída na sua maioria por para-quedistas, foi projectada, no período de 23 a 30 de Setembro, para proteger a população da povoação de Bocaranga, noroeste da RCA.

Portugal, desde 2017, constitui a "Força de Reacção Imediata (Quick Reaction Force - QRF) da Missão Multidimensional Integrada (...)

Militares garantiram a segurança da Representante Especial Adjunta do Secretário-Geral da ONU para a MINUSCA.

As forças portuguesas empenhadas no teatro da República Centro-Africana, estiveram empenhadas em garantir a segurança da Representante Especial Adjunta do Secretário-Geral da ONU da Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da República Centro-Africana (Minusca), durante as negociações realizadas para a reconciliação entre grupos armados e comerciantes do terceiro distrito, depois dos recentes combates entre estes, que resultaram na morte de 50 pessoas e causaram 80 feridos.

Conforme comunicado do Estado Maior, o "objectivo foi aproximar (...)

Helicóptero Mi-17 e outros equipamentos russos são entregues em Moçambique, mas com destino ainda incerto.

Uma aeronave de transporte Antanov-124, da Força Aérea Russa, foi vista e fotografada a descarregar um helicóptero Mi-17, assim como outros equipamentos de procedência russa, em Nacala, Moçambique, no passado dia 25 de Setembro. Conforme se pode constatar, com recurso a dados do Flightradar24, o An-124, matrícula RA-82038, descolou da Europa Oriental no dia 24 de Setembro e retornou ao mesmo local a 26 do mesmo mês.

Especula-se que assessores militares de Moscovo se encontram destacados em Moçambique desde Agosto e, em Setembro, a (...)

Últimos artigos