Boeing Brasil, o novo nome da extinta Embraer Comercial

24-05-2019

Americana Boeing estava em conversações desde 2017 para adquirir a divisão comercial da Embraer.

Dezembro de 2017, vem a público que a gigante aeronáutica Boeing estaria em conversações para cativar a empresa brasileira Embraer em todos os seus sectores. A americana Boeing e a Embraer do Brasil corroboram o informação, na altura noticiada pelo "Wall Street Journal". 

No sector político tal possibilidade não é bem recebida e no mesmo mês, Michel Temer, o então presidente do Brasil, diz que a venda está fora de questão, alegando a importância estratégica da empresa brasileira e informando que apenas parcerias seriam aceites. O Ministro da Defesa, na altura Raul Jungmann, também se opõe, dizendo que a Embraer tem sectores de extrema importância, de interesse nacional e que uma das divisões mais estratégicas, a Embraer Defesa&Segurança, nunca poderia ficar fora do controlo brasileiro.

Não serve de muito, a 5 de Julho de 2018, a Embraer e a Boeing anunciam uma Joint Venture com aspecto de parceira, fora do negócio ficariam as divisões de Defesa&Segurança e Aviação Executiva. O Brasil estava em eleições presidenciais e qualquer pressão política não terá sido a suficiente para impedir o conselho da empresa de fazer negócio (a Embraer é privada desde 1994). A 10 de Janeiro de 2019, o governo aprova a parceria.

Aplicaram-se no entanto algumas salvaguardas, tais como a manutenção do pólo tecnológico e industrial, salvaguarda dos empregos dos trabalhadores e dos retornos financeiros para o país. A Boeing não poderia, simplesmente, desmantelar a Embraer. 

As actividades resultantes da concretização da dita Joint-Venture teriam de permanecer no Brasil mas essas garantias não foram no entanto oficializadas, apenas verbalmente asseguradas pelo novo presidente, Jair Bolsonaro, que na altura da oficialização da união entre as duas empresas estava já a frente dos rivais nas presidenciais. Bolsonaro foi eleito em Outubro, menos de três meses depois do anúncio da Joint-Venture e três meses antes da aprovação do negócio pelo governo.

Manter as divisões de Defesa e de Aviação Executiva poderá não ser um bom negócio, a maioria dos especialistas é da opinião de que sem o sector comercial a Embraer não conseguirá sobreviver com o que ficou fora do negócio, a divisão militar só corresponde a 8% das receitas totais da empresa. Por outro lado, em 10 anos, a Embraer teve uma queda de 80% na venda de aviões comerciais, indicando que a empresa brasileira está, para todos os efeitos, em aparente crise.

A Embraer sempre foi vista como a jóia industrial de um Brasil cuja balança comercial é ancorada por produtos padronizados, não diferenciados ou não transformados, de baixo valor agregado e de simplificado processo de produção. A empresa aeronáutica e a sua divisão comercial é vista como uma das excepções, sendo a principal exportadora de produtos de elevado valor.

"Boeing Brasil - Commercial", é o novo nome da nova empresa resultante da compra da divisão comercial da Embraer pela gigante norte-americana. Ainda por decidir está o nome a ser dado à família de aeronaves comerciais da empresa sul-americana, mais concretamente da gama E-Jets E2, que são a continuação da bem sucedida família de jactos regionais da Embraer.

A Embraer, como empresa de aviação comercial e civil, deixará de existir e está extinta com tal nome, o negócio prevê que a Boeing cative 80% da nova Joint-Venture, o que lhe dá completa independência de decisão. Quanto ao que resta da Embraer propriamente dita, a empresa continuará a operar nos mercados de defesa, aviação executiva e agrícola.

Embora a divisão Embraer Defesa&Segurança continue a persistir, ambos os seus principais projectos contam com influência norte-americana, isto porque a Boeing, assinou com a Embraer outra Joint-Venture, que prevê uma participação de 49% na comercialização do KC-390. O A-29 Super Tucano, avião de ataque leve que representa um dos grandes sucessos brasileiros na aviação militar, é agora também comercializado pela igualmente americana Sierra Nevada Corp, sendo vendido inclusivamente sem a designação da empresa brasileira.

As OGMA (Oficinas Gerais de Material Aeronáutico), empresa portuguesa detida em 65% pela Embraer, deverá continuar a ser detida pela brasileira. As fábricas no Brasil de Gavião Peixoto, Botucatu, Eugênio de Melo e Melbourne nos Estados Unidos também deverão permanecer em mãos brasileiras. 

Novamente falando em Portugal, as fábricas de Évora instaladas pela empresa brasileira deverão passar para controlo americano, mas representantes da Boeing já vieram a Portugal informar o governo português que nada mudará e que a Joint Venture iria de facto beneficiar o "cluster" de aviação luso. A visita de representantes da Boeing a Portugal deu-se depois que o país expressou que teria de fazer uma reavaliação sobre se a Embraer continuava relevante para o interesse estratégico nacional, em clara referência a nova gestão americana. 

Portugal está envolvido no desenvolvimento e produção do Embraer KC-390 e na altura mostrou-se carente de garantias de que a sua relevância como parceiro se mantinha, caso contrário, poderia mesmo optar por um avião diferente quando chegar a hora, num futuro próximo, de adquirir cinco novos aviões de transporte táctico e estratégico.

Para a Boeing, a absorção da Embraer é uma resposta à união entre a europeia Airbus e a canadense Bombardier.


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