Estados Unidos preparam-se para excluir Turquia a partir de 2020

07-06-2019

F-35A /Imagem de autor desconhecido
F-35A /Imagem de autor desconhecido

Estados Unidos em via de excluir participação da industria turca no programa Joint Strike Fighter, a menos que Ancara recue na compra do moderno sistema russo S-400 

Os Estados Unidos estão em vias de excluir, a partir do início de 2020, a participação da indústria turca no Joint Strike Fighter (traduzido à letra, Lutador de Ataque Comum), programa onde estão inseridas as etapas de desenvolvimento e fabricação do moderno caça furtivo de quinta geração, F-35 Lightning II. A data de início, foi noticiada pelo Defense News e baseada numa carta de 6 de Junho do Secretário de Defesa norte-americano, Patrick Shanahan.

O Pentágono prevê, portanto, transferir a participação de Ancara para outros países parceiros, encerrando contratos com as indústrias turcas, nomeadamente a Turkish Aerospace Industries, Roketsan e Tusas Engine Industries. A Turquia, que pretende adquirir pelo menos 100 caças F-35 Lightning II na variante "A", veria a entrega dos aviões vetada e todas as 937 peças que fabrica para si e para o restante mercado internacional, tornarem-se responsabilidade de outros parceiros e fornecedores. A medida seria apenas uma de muitas que o Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América (EUA) pretende aplicar à Turquia, como forma de convencer o país a não insistir na aquisição do sistema anti-aéreo russo S400 "Triumf"

"A Turquia, obtendo o S-400, obriga-nos a descontinuar a participação do país no programa F35, conforme já tínhamos anunciado a 28 de Maio" (...) "embora preservemos a intenção de manter o nosso valioso relacionamento" - palavras de Patrick Shanahan, Secretário de Defesa dos Estados Unidos, numa carta enviada ao homólogo turco, Hulusi Akar 

Caso a Turquia abandone as suas pretensões de adquirir armamento russo, a Subsecretária de Defesa, Ellen Lord, observou que a parceria com os turcos poderia ser mantida, indicando portanto que a posição americana não é definitiva e que os norte-americanos mantêm a intenção de reaver boas relações com Ancara, desde que estes se "afastem" da Rússia. 

A Turquia já possui formalmente quatro aviões do tipo, no entanto, os Estados Unidos têm negado o envio das aeronaves para solo turco, inclusive suspendendo o treino dos pilotos e técnicos de Ancara, que precisam de formação para trabalhar com o caça. Lord disse ainda que o Pentágono, caso se inviabilize a entrega dos F-35 à Turquia, deverá redireccionar as aeronaves para a Força Aérea dos Estados Unidos, mas nenhuma decisão teria sido ainda tomada.

Aviões F-35 /imagem via DefenseNews
Aviões F-35 /imagem via DefenseNews

Apesar de cerca de 400 das 937 peças fabricadas pela indústria turca serem de origem exclusiva, não deverá por causa disso ser sentida grande diferença ou atraso, por que segundo Lord, existem outros fornecedores capazes de absorver as responsabilidades destinadas à indústria Turca.  

O vice almirante Mat Winter, executivo do programa do F-35, tinha dito em Abril, que com a remoção da Turquia do programa, seriam sentidos atrasos de dois anos na construção de 50 a 75 aviões, mas de acordo com Ellen Lord, tal situação foi evitada e só ocorreria caso os acordos a serem encerrados com a cadeia de fornecedores turcos fosse feita neste verão, ao invés de 2020.

"A Turquia ainda tem a opção de mudar o seu rumo. Basta que não aceite a entrega do S-400 e é o suficiente para que a Turquia retorne às actividades normais do programa F-35 " (...) "A Turquia é um aliado próximo da OTAN e nossa relação militar é forte." - Subsecretária de Defesa, Ellen Lord, a falar para jornalistas na sexta-feira

O Pentágono teria identificado entidades capazes de fabricar as ditas peças de origem exclusiva turca, isto apesar da tomada de decisão pertencer à Lockheed Martin e Pratt&Whitney, os principais empreiteiros. Esses novos fornecedores seriam predominantemente "fontes americanas", mas também externas, porque é de interesse dos Estados Unidos ter "segundas e terceiras fontes para a maioria dos itens", talvez até para evitar eventuais situações semelhantes no futuro.

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos teria também suspendido a edificação de uma Instalação de Revisão de Motores na Turquia, sendo que existem "outras duas localizações europeias que podem absorver o volume sem nenhum problema". 

"Se conseguimos trabalhar com os turcos também conseguimos fazê-lo (agora) sem atrasos, graças a uma "desaceleração disciplinada" (a partir do) "início de 2020" - Ellen Lord, Subsecretária de Defesa

O papel da Turquia é sem dúvida relevante e o país é financiador do projecto, mas tal não preocupa a Subsecretária porque, até a data, só se teria compartilhado os dados apropriados e devidamente controlados, não havendo nenhuma documentação crítica, digna de preocupação americana, nas mãos de Ancara.

Linha de Produção de caças F-35
Linha de Produção de caças F-35

A partir de 31 de Julho, a Turquia ficará também impedida de aceder a Base Aérea de Luke, Arizona, onde se treinam os pilotos para voar no Lightning, Base Aérea de Eglin, na Florida, onde é ministrada a formação destinada à manutenção dos aparelhos, assim como ao Escritório do Programa Conjunto em Washington, onde está estacionada a "equipa" de cooperação do projecto. Todos os turcos envolvidos no programa não deverão retornar aos Estados Unidos, sendo que actualmente, nas instalações de Florida e Arizona, estão a ser treinados 42 militares turcos, dos quais quatro são pilotos e os restantes estão a ser formados para trabalhos de manutenção.

O prazo de 31 de Julho, só permitirá à Turquia formar 28 desses militares na operação do F-35, todos os outros terão de retornar ao seu país antes do fim do treinamento. A Turquia já conta com dois instrutores próprios, instruídos em Luke, que também deverão ser enviados para casa.

"Nós controlamos os dados. Nós compartilhamos o que é apropriado. Os turcos não têm documentação crítica com a qual estamos preocupados" - Ellen Lord, Subsecretária de Defesa dos Estados Unidos

A Turquia é uma nação importante para OTAN, abrigando inclusive importantes instalações militares, como a Base Aérea de Incirlik, que Ancara em particular já ameaçou usar como trunfo. Nesse sentido e na esperança de acalmar as tensões, elas próprias (tensões) também instigadas por inúmeros factores políticos e de "segurança nacional", os EUA enviaram equipas técnicas ao país turco, assim como promoveram reuniões em Washington para discutir a aquisição do sistema S-400 e da ameaça que, aos olhos dos americanos, este representa.

Até agora esses esforços não têm produzido efeito, com o presidente Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, a continuar a fazer declarações em apoio à compra do sistema russo, e com o ministro da Defesa do país a afirmar que militares turcos teriam já sido enviados à Rússia para treinamento no sistema de defesa aérea.

F-35 /Imagem de autor desconhecido
F-35 /Imagem de autor desconhecido

A Casa Branca tinha dado a 21 de Maio, duas semanas para que Erdogan, presidente da Turquia, cancelasse a aquisição do equipamento de fabricação russa, sob pena do país ser alvo de sanções e retaliações. 

Segundo os americanos, as necessidades de defesa aérea poderiam ser facilitadas pelo sistema americano Patriot, sistema esse que os turcos já pretendiam adquirir (os Estados Unidos negaram a venda antes de Ancara procurar a alternativa russa) mesmo comprando o S-400. Agora, tanto o Patriot como outros equipamentos militares podem vir a ser vetados à Turquia. 

Caso os americanos impeçam a aquisição do F-35 e optem pelo corte de relações com a Turquia, o país de Erdogan pode vir a usar as bases militares de Incirlik e do Kurecik como trunfo contra os EUA nos próximos dias. A Turquia, em resposta à reacção dos Estados Unidos, estaria também em conversações para uma eventual compra do avião furtivo russo Sukhoi SU-57 ao invés da aeronave americana, assim como mais um lote de sistemas S-400, ao invés da operação conjunta do sistema russo com os "Patriot" americanos.

Da esquerda para a direita: F-35C (operado em porta-aviões por via de catapulta), F-35B (descolagem vertical e/ou curta) e F-35A (versão convencional para operar em pista)
Da esquerda para a direita: F-35C (operado em porta-aviões por via de catapulta), F-35B (descolagem vertical e/ou curta) e F-35A (versão convencional para operar em pista)

EUA e Turquia continuarão aliados

Questionado se a decisão final de comprar o S-400 deveria ser interpretada como uma aproximação entre a Turquia e a Rússia, Andrew Winternitz, Subsecretário  Adjunto da Defesa Americana para a Europa, pareceu rejeitar a ideia, ao dizer que a intenção é realmente continuar a "estratégica parceria" dentro da OTAN. 

De acordo com o subsecretário, mesmo que os turcos adquiram o S-400, a relação entre os dois países não deverá mudar, para além é claro das medidas americanas postas em marcha como resposta à aquisição de armamento russo, mas de resto, as restantes "camadas" da aliança "estratégica" entre as duas nações, deverão ser mantidas.

Ainda assim é razoável concluir que, caso a Turquia avance com a compra do S-400, poderão ser impostas novas sanções do Congresso Americano, como parte da "Lei Contra os Adversários da América", que penaliza os parceiros que comprem equipamentos militares russos. 

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