EUA poderão estar a viciar mercado de defesa europeu 

01-06-2019

Trump irrita europeus com pedido de acesso total aos cofres de defesa da União Europeia

Alguns líderes europeus estão furiosos com o recente pedido de Washington de acesso total aos cofres de defesa da União Europeia (UE). Na origem do pedido, está a iniciativa da administração Trump para subsidiar as vendas de armas dos Estados Unidos na Europa, em concreto em países do antigo Pacto de Varsóvia.

O PEIR, "Programa Europeu de Incentivos à Recapitalização, é uma nova "ferramenta" desenvolvida pelo Comando Europeu dos EUA, para acelerar o processo de retirar de operação equipamentos russos, que ainda estejam em serviço em algumas nações aliadas, e que prevê a distribuição, em fase inicial, de 190 milhões de dólares, a países como a Albânia, Bósnia e Macedónia, mas também da Eslováquia e restantes estados membros da UE, tais como a Croácia e Grécia.

Embora represente uma quantia relativamente pequena de dinheiro, a promessa de expansão, juntamente com o facto de que esses fundos serão usados expressamente para levar países europeus ao encontro de armamento fabricado nos Estados Unidos, significa que as empresas europeias de defesa ficarão ou poderão ficar, numa posição complicada. 

Legenda de imagem: O "Boxer", da alemã Rheinmetall, é considerado o melhor veículo da sua categoria disponível no mercado, claro que opiniões podem divergir. A Alemanha é globalmente reconhecida pela qualidade dos veículos blindados de combate que a sua industria produz, que vão desde equipamentos como o da imagem, a Carros de Combate Pesados e sistemas de Artilharia

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Analistas, questionados sobre se poderia ocorrer uma resposta europeia ao PEIR americano, afirmaram que o advento do financiamento dos Estados Unidos, para a compra dos seus próprios produtos por países europeus, traria potencias resultados negativos na indústria europeia de defesa, que estaria em posição de concorrência ainda mais desfavorável. Trata-se de uma potencial monopolização, viciando países que eventualmente careçam de grandes orçamentos, em kits Made in USA.

Pode parecer uma conclusão precipitada, mas facto é, que o programa teve início depois de tensas relações transatlânticas e de um empurrão de Washington para ter acesso ilimitado ao pote emergente do dinheiro de defesa europeu, nomeadamente o Fundo Europeu de Defesa e os projectos de colaboração associados. 

Do ponto de vista do fabricante local, olhamos para isto e trata-se apenas de fechar o potencial cliente europeu no equipamento americano, bloqueando a concorrência da própria comunidade em que esse mesmo país está inserido, não é isto claramente altruísta? Se você for um fabricante de armamento americano, vai querer entrar nisto, é o "maná do céu".- Douglas Barrie, da filial de Londres do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, questionado pelo DefenseNews

Os Estados Unidos aparentam claramente estar mais interessados na venda das suas próprias armas, do que no fortalecimento da defesa europeia e da respectiva base industrial de defesa. Isto a mesmo tempo em que apelam aos membros OTAN para se armarem e contribuírem mais no sector militar, por meio do investimento de 2% do PIB em defesa, valor previsto nas directrizes da Aliança Atlântica.

Grécia, Macedónia e Croácia, por exemplo, buscam substituir os seus veículos de combate de infantaria e, a indústria europeia, é perfeitamente capaz de suprir essas necessidades, mas não se Washington aniquilar as capacidades desses fornecedores de se manterem competitivos. 

Não se trata sequer de haver uma distribuição justa de fabricantes por meio de uma concorrência justa, mas sim da intenção americana de bloquear as vendas europeias aos próprios europeus.

Na imagem, caças Dassault Rafale franceses: No tocante a independência tecnológica e militar, a França é talvez o país europeu mais autónomo
Na imagem, caças Dassault Rafale franceses: No tocante a independência tecnológica e militar, a França é talvez o país europeu mais autónomo

Barrie observou que a Europa conta com uma indústria de defesa diversificada e relativamente bem evoluída e que os países europeus geralmente dividem-se em grupos que apoiam industrias "locais", como no tocante a aviação, com a multi-europeia Airbus e a italiana Leonardo, assim como fornecedores, também europeus, no mercado de veículos terrestres. Os países do velho continente optam preferencialmente pela protecção das entidades locais do sector, mas a eventual pressão americana poderá não dar essa hipótese a nações com orçamentos mais humildes. 

Fundamentalmente, os analistas concordam que, se esses países com orçamentos de defesa limitados conseguirem subsídios americanos para começar a comprar equipamentos dos EUA, provavelmente permanecerão com esse equipamento a longo prazo. Isso significa más notícias para os fabricantes europeus e pode levar a algum tipo de resposta. 

Conclui-se também, que a justificação americana de que a sua intenção é fortalecer a defesa da Europa, não encaixa, pois os eventuais ganhos operacionais, nunca compensariam a perda da autonomia europeia no sector da indústria bélica, por meio da impossibilidade de venderem os equipamentos que desenvolvem.

A União Europeia, decidida a fortalecer, com investimentos e não só, a independência tecnológica e industrial em determinadas áreas consideradas cruciais no sector militar, não tem agradado em nada, de facto, os interesses americanos. A Comissão Europeia propôs aumentar o investimento em segurança em 40%, no período orçamentário compreendido entre 2021 a 2027, bem como criou o já referido Fundo Europeu de Defesa. Assim, contando com investimentos do fundo geral, a UE espera tornar-se um dos quatro maiores investidores em pesquisa e tecnologia de defesa. Dentro do orçamento para o período de 2021 e 2027, 4,1 mil milhões de euros serão designados para financiar "projectos de investigação competitivos e colaborativos". Além disso, planeia-se destinar 8,9 mil milhões para o desenvolvimento de protótipos e requisitos relacionados na área de certificação e testes.

Legenda de imagem: O "meio falhanço" do negócio dos Pandur II do Exército Português, são um bom exemplo de interferência externa e conflito de interesses. Portugal tinha a licença, adquirida à austríaca Styr, para os fabricar e vender, mas com a entrada da americana General Dynamics na empresa da Áustria, rapidamente o negócio, que já era atribulado por outros factores, entrou em colapso. A gigante americana chegou mesmo a vir a Portugal, para sem sucesso, tentar retirar as licenças, cascos inacabados e restante maquinaria necessária para a produção dos veículos.

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Estas conclusões, da insatisfação americana perante uma Europa autónoma, provêem de uma carta enviada à chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, pela subsecretária de estado dos EUA, Ellen Lord, em que acusa a UE de desenvolver capacidades militares duplas, em competições, segundo ela desnecessárias, entre a indústria da União Europeia e a OTAN. A carta vem carregada de falta de fundamento, podendo-se por exemplo referir o simples facto de que a OTAN é, como se sabe, na sua grande maioria constituída por países membros da UE.

Na Europa, nem sempre os países se entendem. É comum numa mesma solicitação concorrerem diferentes empresas europeias com produtos duplicados entre si, como  por exemplo a italiana Leonardo e a "multi-europeia" Airbus a competirem com aeronaves semelhantes, cujo desenvolvimento era portanto desnecessário dado as suas capacidades duplicadas.

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