Perceber o Irão - parte I

27-06-2019

Soldados soviéticos e britânicos encontram-se perto de Qazvin
Soldados soviéticos e britânicos encontram-se perto de Qazvin

Hoje, como se sabe, as relações entre os Estados Unidos e o Irão são tensas, mas nem sempre foi assim

Nos anos 70, tudo parecia correr bem ao Irão, as suas relações com o ocidente, especialmente com os Estados Unidos, eram boas, a sua economia crescia e as suas infraestruturas eram modernizadas num ritmo acelerado. As relações entre estas duas nações começaram em meados do século 19, os Estados Unidos eram vistos como sendo uma potência confiável, tão confiável que os "tesoureiros-gerais" dos "Xás" daquela época, chegaram mesmo a ser americanos, como Arthur Millspaugh e Morgan Shuster.

Durante o regime do "Xá" Mohammad Pahlavi, negócios com os Estados Unidos incluíam de tudo, desde petróleo às mais modernas armas americanas. O Irão era o principal aliado americano na região, uma espécie de Arábia Saudita dos dias de hoje.

"Operação Countenance" e a queda de Reza Pahlavi

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Irão (na altura Império do Irão) foi invadido pelo Reino Unido e pela União Soviética de forma a garantir a acessibilidade ao petróleo iraniano, necessário para movimentar a máquina de guerra aliada. Embora o Irão fosse neutro, os Aliados consideraram que Reza Shah (Xá) Pahlavi, o monarca do Irão da altura, era favorável ao "Eixo" e por isso, durante a ocupação, foi deposto e substituído pelo filho, Mohammad Reza Pahlavi. 

No entanto, quando recuamos para 1925, percebemos que Reza, não era de facto favorável às filosofias nazistas. Neste ano, Reza coroou-se como líder, unificando a Pérsia e pedindo, em 1935, que as delegações estrangeiras reconhecem-se o termo Irão, o nome histórico do país. Iniciou programas de modernização em todos os sectores económicos, sociais e militares. 

Um País outrora isolado sob a dinastia Qajar, estava agora em rápida evolução industrial. Reza constrói infraestruturas, expande as cidades, redes de transporte e estabelece um sistema escolar. No entanto, para alcançar estes feitos, Shah precisa de apoio ocidental e assume o Irão como um país politicamente neutro, visto que precisava da ajuda de países mais industrializados.

Reza Shah Pahlavi, pai de Mohammad Pahlavi
Reza Shah Pahlavi, pai de Mohammad Pahlavi
Mohammad Reza Shah (Xá) Pahlavi em 1970
Mohammad Reza Shah (Xá) Pahlavi em 1970

Nesse sentido, por muitas décadas, o Irão cultivou laços com o Império Alemão, porque este, ao contrário de britânicos e soviéticos, não tinha uma história de imperialismo na região. Isto não significa no entanto que o governo iraniano tenha apoiado o anti-semitismo nazista, tanto que as embaixadas iranianas na Europa resgataram pelo menos 1500 judeus, que receberam posteriormente cidadania e abrigo no Irão. Ainda assim, quando em 1941, russos e britânicos, iniciam a "Operação Countenance", Reza Shah (Xá) Pahlavi, é deposto por ser demasiado amigo da Alemanha. 

As tensões entre o Reino Unido e Irão, teriam de facto começado em 1931, quando o "Xá" cancelou a "Concessão D'Arcy", que dava aos britânicos o direito exclusivo de vender o petróleo iraniano, mediante o pagamento de apenas 10% da receita. Tanto a União Soviética como o Reino Unido tinham os mais variados interesses no Irão, terão sido as cobiças, destes e outros países, a principal razão pela queda de Reza Pahlavi.

A era de Mohammad Reza Shah Pahlavi

Após a forçada abdicação de Reza Shah Pahlavi, reentra ao serviço público, em 1944, Mohammad Mosaddegh, um franco defensor do nacionalismo, que desempenhou um importante papel, ao se opor, com sucesso, à concessão soviética do petróleo iraniano no norte do país. O negócio era semelhante ao que um dia o Reino Unido teria tentado impor no sul, mas que Reza Pahlavi conseguiu pôr abaixo.

Mosaddegh constrói uma força política considerável, baseada em grande medida no seu chamamento à nacionalização das explorações petrolíferas. Em Março de 1951, os "Majilis/Majles" (semelhante a deputados) aprovam as suas políticas de nacionalização, o seu poder cresce tanto, que o Xá, Mohammad Reza Shah Pahlavi, o tal filho de Reza (ex)Shah Pahlavi, vê-se forçado a nomear Mosaddegh como primeiro-ministro do país.

Mohammad Mosaddegh
Mohammad Mosaddegh

As políticas do novo primeiro-ministro resultaram num aprofundamento da crise iraniana, tanto política como económica. Mosaddegh e o seu Partido da Frente Nacional continuaram a ganhar poder, mas alienaram muito do seu apoio, particularmente entre a elite e junto das nações ocidentais. Os ingleses acabaram por se retirar do mercado do petróleo iraniano e Mosaddegh não conseguia encontrar mercados alternativos.

Desenvolve-se uma luta pelo controlo do governo e, em Agosto de 1953, o "Xá" tenta demitir Mosaddegh. Apoiantes do primeiro ministro reagem, indo para as ruas e forçando Mohammad Pahlavi a deixar o país. No entanto, em poucos dias, os oponentes de Mosaddegh derrubaram a sua tentativa de mudança de regime e restauraram Pahlavi aos comandos do país.

Os apoiantes do regime de Mohammad Pahlavi incluíam não só determinados sectores do povo, como também os Estados Unidos e Reino Unido. Afinal, foi com apoio britânico que o seu pai tinha sido deposto.  

Mohammad Mosaddegh é condenado a três anos de prisão por traição, tendo ficado, após cumprir a pena, em prisão domiciliar até ao fim da sua vida. O Irão manteve a soberania nominal sobre as suas instalações de petróleo, mas sob um acordo alcançado em 1954, estipulou-se a divisão das receitas do petróleo em duas partes iguais de 50%, entre o governo e um consórcio internacional, sendo esta associação externa a responsável pela exportação e exploração. Esta aproximação ocidental da esfera do comando iraniano e a pena dada a Mosaddegh, causa descontentamento, nomeadamente junto do parlamento.

A revolução

Anos mais tarde, Mohammad Reza Shah Pahlavi, toma medidas para enfraquecer o parlamento e derrubar a influência e riqueza do clérigo. Mohammad toma também  providências para interromper a economia de conceito rural, fundamentada em mãos de proprietários singulares. As medidas direccionam o Irão para uma rápida urbanização e ocidentalização, com resultados economicamente positivos e com um notável aumento de produção de riqueza, que nem sempre terá sido bem distribuída.

A oposição às políticas do xá acentua-se nos anos de 1970, quando a instabilidade monetária mundial e as flutuações abruptas do consumo de petróleo no Ocidente, ameaçaram seriamente a prosperidade económica do país. Os gastos abismais do governo e a subida do preço do petróleo, levaram a altas taxas de inflação e à consequente estagnação do poder de compra e qualidade de vida dos cidadãos iranianos.

Em adição às crescentes dificuldades económicas, a repressão social e política do regime intensifica-se, com a marginalização de partidos da oposição. O protesto social e político foi muitas vezes recebido com censura, vigilância ou assédio, e a detenção ilegal e a tortura eram já tidos como "comuns" no Irão. 

Perante tal ambiente, membros da Frente Nacional ("o partido de Mohammad Mosaddegh" / constituído por uma coligação de nacionalistas, clérigos e partidos de esquerda não-comunistas), do Partido Tudeh (massas, pró soviéticas) e os seus vários grupos dissidentes e religiosos, unem-se em oposição ao regime de Xá. 

Pahlavi é acusado de "irreligião" e de subserviência às potências estrangeiras. A dependência do "Xá" Mohammad Pahlavi junto dos Estados Unidos, as políticas equivocadas e os seus estreitos laços com Israel, serviam para alimentar o descontentamento e a influência da retórica dissidente.

Em Janeiro de 1978, enfurecidos, milhares de jovens estudantes de escolas religiosas, vão para as ruas, seguidos por milhares de outros jovens desempregados, alguns provenientes das zonas rurais, economicamente estagnadas.

O "Xá", que na altura estava diagnosticado com cancro, vê-se atordoado com as súbitas hostilidades. Mohammad Pahlavi, desorientado com todos estes factores, começa a vacilar. 

As manifestações são combatidas na base da repressão violenta por parte de forças do governo, que servem apenas para alimentar a violência num país "xiita", onde o martírio, aliás, desempenha um papel fundamental na expressão religiosa. Inicia-se um ciclo de violência no qual cada morte alimenta novos protestos e onde estes se realizam cada vez mais sobre o "manto" religioso do islamismo xiita. "Allahu Akbar" ("Deus é Grande"), é agora o grito revolucionário dos manifestantes.

Com a violência e a desordem a continuar a aumentar, o regime impõe a lei marcial e as forças militares e de segurança começam a combater os manifestantes, cada vez mais, com munição letal. Centenas de milhares enchiam as ruas e até funcionários públicos juntavam-se agora às manifestações.

O Xá, às pressas, elege Shahpur Bakhtiar como novo primeiro-ministro e, em Janeiro de 1979, no que foi oficialmente descrito como uma "viagem de férias", foge do Irão. O Conselho de Regência estabelecido para administrar o país durante a ausência de Mohammad Reza Shah(Xá) Pahlavi mostra-se inoperante e o primeiro ministro, nomeado às pressas, mostra-se incapaz de comprometer os seus colegas da Frente Nacional.

Mais de um milhão de pessoas reúnem-se na capital Teerão, e a 11 de Fevereiro as forças armadas do país declaram a sua neutralidade, derrubando efectivamente o regime. Shahpur Bakhtiar, o Primeiro Ministro, exila-se em França.

Ruhollah Khomeini, o novo Líder do Irão

Em Fevereiro, sobe ao poder Ruhollah Khomeini, o novo "Líder Religioso do Irão". (...)

(...)

por continuar... aguarde publicação da parte II 

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