Helicóptero russo entregue em Moçambique, mas não se sabe para quem

02-10-2019

Helicóptero Mi-8 (Mi-17) russo
Helicóptero Mi-8 (Mi-17) russo

Helicóptero Mi-17 e outros equipamentos russos são entregues em Moçambique, mas com destino ainda incerto.

Uma aeronave de transporte Antanov-124, da Força Aérea Russa, foi vista e fotografada a descarregar um helicóptero Mi-17, assim como outros equipamentos de procedência russa, em Nacala, Moçambique, no passado dia 25 de Setembro. Conforme se pode constatar, com recurso a dados do Flightradar24, o An-124, matrícula RA-82038, descolou da Europa Oriental no dia 24 de Setembro e retornou ao mesmo local a 26 do mesmo mês. 

Especula-se que assessores militares de Moscovo se encontram destacados em Moçambique desde Agosto e, em Setembro, a Sábado noticiava que pelo menos 20 militares russos teriam aterrado no aeroporto de Nacala. Ainda no mês de Setembro, dias depois da chegada dos referidos 20 militares, era instalada na localidade de Mueda, numa base das Forças Armadas Moçambicanas, material para a operação de "vários drones", destinados a auxiliar no combate a extremistas islâmicos. De facto, a imprensa local chegou a relatar, em Agosto, que pelo menos 160 operacionais russos se encontravam no país africano.

Nos últimos anos, a antiga colónia portuguesa tem sido assolada por uma série de atentados de terroristas islâmicos. A 6 de Junho, um desses ataques foi mesmo reivindicado pelo grupo "Província da África Central do Estado Islâmico" (PACEI), tendo sido a primeira vez que a organização auto-reconheceu a sua presença em Moçambique.

"Os soldados do califado conseguiram repelir um ataque do Exército "cruzado" moçambicano na aldeia de Maitupi, em Macimboa. Matámos e ferimos vários deles e capturámos armas, munições e rockets" (...) - PACEI, 6 de Junho, via Telegram.

Existem dúvidas quanto ao destino da aeronave que chegou em Setembro, tudo parece indicar, inclusive pelas características da camuflagem, que o destino operacional é a Força Aérea de Moçambique (FAM), por outro lado existe a possibilidade do aparelho se destinar, de facto, a operar com as forças russas ali presentes ou, ainda, para servir junto de privados. Em Novembro de 2018, o instituto de Estudos de Segurança (ISS) informou que o governo de Moçambique estaria a destinar responsabilidades de segurança em Cabo Delgado a uma empresa de segurança.

Mi-17 (Mi-8) à chegada a Moçambique. As cores estão aplicadas de uma forma diferente mas o padrão é semelhante ao usado pela FAM
Mi-17 (Mi-8) à chegada a Moçambique. As cores estão aplicadas de uma forma diferente mas o padrão é semelhante ao usado pela FAM

O facto da embaixada russa já ter afirmado no passado que relatórios que alegam a presença de tropas russas são falsos, reforça a ideia de que empresas de segurança, contratadas por Moscovo ou por Moçambique, seriam as responsáveis pelas referidas movimentações de equipamento militar. À Lusa, o vice-ministro da Defesa de Moçambique, Patrício José, apenas disse que o país mantém "consultas" com vários parceiros. De facto, aquando do recente ciclone Idai, a Rússia fez parte do auxilio humanitário e, em Agosto, Moscovo concordou em perdoar 95% da dívida moçambicana, assim como em retomar os investimentos naquele país.

Moscovo e Maputo assinaram, também em Agosto, uma resolução para permitir que embarcações militares russas atraquem em portos moçambicanos e, logo em Setembro, surgiam indicações de que equipamentos militares tinham sido vistos nos portos de Nacala, em Nampula, assim como nas localidades de Mueda e Palma, na província de Cabo Delgado. As áreas referidas são aliás das mais afectadas pela insurgência, com forte presença do grupo Ansar al-Sunna.

Ansar al-Sunna, ("apoiantes da tradição", em português) é um grupo militante islâmico, formado em Cabo Delgado pelos seguidores do radical queniano Aboud Rogo Mohammed, falecido em 2012. A organização tornou-se cada vez mais violenta em 2017, realizando ataques contra alvos civis e governamentais. Os membros do Ansar al-Sunna são maioritariamente moçambicanos, mas também existem estrangeiros da Tanzânia e Somália, locais onde, junto com localizações no Quénia, é realizado o treinamento militar e ideológico. O financiamento é obtido a partir do contrabando, redes religiosas e tráfico de humanos.

O presidente de Moçambique, Filipe Nyussi, fez recentemente aquela que foi a primeira visita a Moscovo em 20 anos, onde assinou, junto de Vladimir Putin, diversos acordos na área da segurança e energia. A empresa russa Rosneft, terá ganhado a exploração de recursos naturais no norte do país, região que também é de forte interesse americano, pese embora que prejudicado pela recente actividade terrorista.

Antanov-124 a descarregar Mi-17 (Mi-8) e "outros equipamentos"
Antanov-124 a descarregar Mi-17 (Mi-8) e "outros equipamentos"

Como se sabe, especialmente pelos portugueses, a presença russa em Moçambique não é de todo recente e remonta aos anos de 1960, quando a então União Soviética (URSS) apoiava a Frelimo na guerra contra Portugal. A presença de Moscovo foi-se extinguindo em África com o passar dos anos, especialmente com o fim da URSS, mas tem voltado em força nos últimos tempos, junto também com a presença da crescente China.

Um artigo recente do The New York Times alertava aliás para este facto, indicando países como a República Centro Africana, Líbia, Sudão, Mali, Níger, Chade, Burkina Faso e Mauritânia, como locais onde se está a expandir a influência russa, em parte motivada pelo interesse dos referidos países em solucionar alguns dos seus problemas à boleia do apoio de Moscovo. No próximo dia 24 de Outubro, Vladimir Putin será o anfitrião da cimeira "Africa-Rússia", em Sochi.

"Embora os relatórios de militares russos não possam ser verificados de forma independente, os acordos de segurança abrem caminho para que os militares russos treinem e aconselhem forças moçambicanas, à semelhança do que a Rússia tem feito em inúmeras outras nações africanas". (...) - Fundação Jamestown, 20 de Setembro

"Uma fonte informou que a empresa de segurança L6G, propriedade de Erik Prince, fundador da notória empresa americana Blackwater, promete arrasar a al-Shabaab em três meses. Em troca de uma fatia considerável das receitas de petróleo e gás" (...) (...) "Assim como a controversa empresa russa Wagner se tem posicionado numa oferta contra a L6G pelo contrato". (...) - Instituto de Estudos de Segurança, Novembro de 2018

O que se pode para já concluir é que, o tal Mi-17, que alguns sites especializados informam ser para a FAM, pode muito bem não o ser. No passado dia 19 de Agosto, o Defenceweb, entre outros, noticiava que helicópteros Gazelle de fabrico francês, sem marcações que os identificassem, mas pintados com camuflagem militar, foram vistos em Moçambique, com especulações de que eles estariam a ser usados por uma entidade militar contratada, para missões de segurança. Também segundo a publicação semanal moçambicana Savana, os mesmos Gazelle foram avistados em Pemba, a 6 de Agosto, sem nenhuma insígnia.

Gazelle´s sem marcações avistados em Moçambique
Gazelle´s sem marcações avistados em Moçambique

O padrão usado nos helicópteros de procedência francesa, indicam no entanto que os mesmo terão, no passado, sido usados pelas forças armadas francesas, que depois os terá vendido. Acredita-se que eles terão sido fornecidos pela ou para a Umbra Aviation, com sede em Durban, na África do Sul, "como parte de um teste de três meses". Desta forma, a chegada de um Mi-17 a Moçambique, pode perfeitamente ser uma episódio semelhante, ou, talvez não.

 É que a FAM de facto teve um acidente com um dos seus aparelhos Mi-17 no passado mês de Abril, o novo helicóptero pode ser o seu substituto (ou até o mesmo, eventualmente reparado na Rússia), parte de um eventual contrato de "compra rápida", assinado, por exemplo, quando o presidente Nyussi visitou Moscovo, ou, pura e simplesmente, resultado da aproximação russa e da consequente "bondade" moscovita que aí encontre origem.

Mi-17 acidentado em Abril. Embora as cores estejam aplicadas de uma forma diferente, o padrão é o mesmo
Mi-17 acidentado em Abril. Embora as cores estejam aplicadas de uma forma diferente, o padrão é o mesmo

Em 2012, o governo moçambicano também tinha manifestado o interesse em comprar seis helicópteros russos do referido modelo, que deveriam ser recebidos logo no ano a seguir, mas saber se estes foram recebidos é uma incógnita, e apurar se o que caiu em Abril fazia parte deste lote, também é difícil. O ministro russo da Indústria e Comércio tinha na altura referido que se trabalhava com a parceira sul-africana "Denel" para modernizar lotes de Mi-17, a serem vendidos para aliados daquele continente.

Em 2014 a empresa romena Aerostar anunciava a conclusão de um programa de modernização de 8 caças Mig-21 e um avião de treinamento L-39 Albatros de Moçambique, as referidas aeronaves não voavam à mais de 20 anos. Efectivamente, em 2012, Moçambique apenas teria ao seu dispor cerca de dois aviões de transporte An-26, dois CASA 212 e um Cessna 182, assim como alguns treinadores Z-326. Actualmente já opera helicópteros e caças de combate, capacidades que durante muitos anos foram esquecidas.

A espinha dorsal da aviação de caça de Moçambique é constituida por 8 caças Mig-21. Na imagem, Mig-21 da FAM
A espinha dorsal da aviação de caça de Moçambique é constituida por 8 caças Mig-21. Na imagem, Mig-21 da FAM


Portugal também marca presença em Moçambique e restante África

Curiosamente, no referido ano de 2012, em Julho, a FAM recebeu um segundo FTB-337G, actualizado com a mais recente tecnologia para uso em treinamento, evacuação aeromédica e operações de vigilância marítima, cedido por Portugal como parte de um pacote de dois aparelhos, fornecidos por meio da "Cooperação Técnico-Militar" (CTM) entre os dois países. Portugal presta também apoio nas áreas da formação de pilotos e técnicos de aviação, medicina, criação de centros de operações aéreas assim como o desenvolvimento de diversas outras capacidades. Também vários militares moçambicanos são integrados regularmente na Academia da Força Aérea Portuguesa como parte da CTM.

FTB-337G com as cores moçambicanas, depois de modernizado pela Força Aérea Portuguesa
FTB-337G com as cores moçambicanas, depois de modernizado pela Força Aérea Portuguesa

No âmbito da "Cooperação Técnico Militar" da CPLP, militares portugueses apoiam a organização, reestruturação e formação das Forças Armadas e militares dos países integrantes. O GAE (Grupo de Acções Especiais) das Forças Armadas Angolanas é um bom exemplo do esforço português na capacitação militar de Angola, não se limitando no entanto só a este país, mas empenhando-se em praticamente todos os "Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa", nomeadamente Cabo Verde, Timor-Leste, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Moçambique.

O Grupo de Acções Especiais das Forças Armadas Angolanas, por exemplo, foi criado, organizado e treinado com base na experiência da guerra civil angolana e na assessoria de "comandos" portugueses. As orientações portuguesas vão desde o treino, tipos de fardamentos, armas, equipamentos, a aspectos mais simples, mas igualmente importantes, como a alimentação que um militar deve ter, segundo relata o "OPERACIONAL.PT", de muito boa reputação, numa das suas reportagens publicadas em 2009. 

Portugal foi também das primeiras forças externas, senão mesmo a primeira, a chegar a Moçambique no advento do ciclone Idai, tendo enviado não só militares, como também mobilizou equipas da GNR, Protecção Civil, equipas da empresa "Águas de Portugal", apoio logístico por meio de aeronaves C-130 e de diversas outras entidades. Angola, Índia, Portugal, Inglaterra, EUA, China e Rússia, terão sido mesmo os participantes de maior destaque no apoio a Moçambique.

Fragata Vasco da Gama, aqui no exercício BRILLIANT MARINER, em 2006. Meramente ilustrativa / Norman Copley
Fragata Vasco da Gama, aqui no exercício BRILLIANT MARINER, em 2006. Meramente ilustrativa / Norman Copley

Em S. Tomé e Príncipe, a Marinha Portuguesa capacita a Guarda Costeira daquele país, apoiando a fiscalização marítima conjunta e falando-se até da eventual cedência de um navio da classe Cacine, uma vez que a referida missão esteja terminada.

Em toda a África, Portugal marca presença, seja por meio de iniciativas bilaterais, seja inserido no contexto da União Europeia, ONU ou NATO. Na República Centro Africana (RCA) por exemplo, o país destaca forças de Comandos e Pára-Quedistas (não se limitando só a estas unidades), contribuindo decisivamente para a missão das Nações Unidas, tendo obtido elevado reconhecimento internacional pela efectividade dos militares portugueses.

Portugal desdobra-se regularmente em todas as partes do referido continente, desde o Golfo da Guiné, à Somália, Mar Mediterrâneo, Mali e referida RCA.


artigo sujeito a edição, última actualização a 03 de Outubro de 2019

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Não sendo inédita, a publicação "Forças Nacionais Destacadas 2019", disponibilizada no site do EMGFA, é por nós considerada de extremo valor informativo, sendo que, por isso, por este meio o partilhamos.

A seguinte informação foi transcrita.

Ministro da Defesa Nacional disse hoje que a cooperação com Angola será reforçada, especialmente na área da formação militar.

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João Cravinho referiu os vários projectos de cooperação, que teve a oportunidade de assistir durante os últimos três dias (...)

Texto Major PILAV Natalino Pereira e Tenente TMAEQ Ulisses Freitas Fotos SAj MMA Fernando Nascimento 

A 29 de Maio de 2012, a aeronave C-130, número de cauda (n/c) 16806 descolou da Base Aérea nº 1 (BA1), com uma carga preciosa: destino - Maputo, Moçambique. A bordo transportava o segundo FTB-337G Skymaster, n/c 13713. Ficaram assim concluídos os trabalhos de manutenção do segundo IRAN1 realizado à aeronave FTB na BA1. O avião seria entregue pelo Ministro da Defesa Nacional, Dr. José Aguiar-Branco, durante a visita oficial realizada àquele país, entre 3 e 8 de Julho, na qual se fez acompanhar entre outras entidades pelo Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, General José Pinheiro. Esta aeronave junta-se a outra do mesmo tipo, n/c 13729, já entregue à Força Aérea de Moçambique em Janeiro de 2011.

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