NGAD: A próxima geração de domínio aéreo americano

22-09-2019

Conceito NGAD da Boeing
Conceito NGAD da Boeing

Processo de desenvolver e construir novo avião pode estar concluído dentro de cinco anos.

No próximo dia 1 de Outubro, a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF-United States Air Force) irá oficialmente reformular o seu projecto NGAD (Next Generation Air Dominance - Próxima Geração de Domínio Aéreo), com vista ao desenvolvimento da futura 6ª geração de caças.

Segundo o Defense News, a Força Aérea daquele país estaria a preparar-se para alterar radicalmente a estratégia de aquisição de novos vectores, por meio de uma "simplificação" de exigências. Uma das medidas, é aliviar parâmetros de resistência estrutural, que actualmente impõe às empresas a construção de plataformas capazes de suportar largos ciclos de vida. Projectar, desenvolver e produzir uma nova aeronave, podia assim ser um processo apto de ser concluído num prazo tão curto quanto cinco anos.

A nova abordagem em torno do domínio aéreo futuro, implica, em parte, retornar aos velhos hábitos do século passado. Aeronaves construídas na década de 1950, as "Century Series" (Séries do Século), eram inseridas em processos rápidos de selecção, que culminavam no desenvolvimento não de um, mas de vários aviões dedicados. Uma clara contradição às práticas actuais, que estimulam o desenvolvimento de um vector capaz de realizar diversas funções, os chamados multi-role (multi-função).

As vantagens de uma plataforma multi-role, passam pela sua versatilidade para diversas tarefas, mas porque não se dedicam em específico a um dos espectros da missão, acabam por se apresentar como uma potencial padronização nociva no tocante à capacidade americana de competir com potenciais adversários. Caças multi-função ficam também sujeitos a um maior desgaste estrutural e, por isso, a um penoso, mas caracteristicamente longo, ciclo de vida.

Conceito NGAD da Lockeed Martin
Conceito NGAD da Lockeed Martin

Assim, pretende-se agora adoptar uma abordagem rápida com diferentes empresas, para o desenvolvimento de pequenos lotes de caças dedicados, encurtando o tempo necessário para passar da idealização para a construção.

"A minha estimativa é de cinco anos (para ter um avião a voar, como parte integrante do NGAD), posso estar errado, mas espero que seja possível até antes, ainda assim acho insuficiente" (...) - Will Roper, Executivo de Aquisições da Força Aérea, em declarações para o Defense News

Trata-se de uma abordagem "radical", se comparado com procedimentos anteriores. No estudo, lançado em 2016, intitulado "Superioridade Aérea 2030", a Força Aérea, a respeito do NGAD, descrevia um avião de penetração furtivo de longo alcance, inserido numa rede de sensores, drones e outras plataformas, denominado de "Penetrating Counter Air", PCA, que actuaria como um nó central do NGAD. 

Ao invés de amadurecer tecnologias ao longo do tempo, de forma a edificar uma vector "requintado", completo e, por isso, multi-role, o objectivo da USAF passa por seleccionar o melhor caça que a indústria possa entregar num determinado período de tempo. Um pequeno número de aeronaves seria depois integrado ao serviço ao mesmo tempo em que os fabricantes se envolviam em novas fases de competição, com o objectivo específico de desenvolver novas plataformas, que seriam depois, também, adicionadas ao serviço, estimulando assim o desenvolvimento tecnológico.

Proposta do Laboratório de Pesquisas da USAF
Proposta do Laboratório de Pesquisas da USAF

O resultado seria uma maior variedade de aviões, projectados para operar em rede e desenvolvidos para atender requisitos específicos. Um pode ser optimizado para uma qualquer "capacidade revolucionária", como um "laser aéreo", enquanto outro pode ser algo mais convencional ou, um drone. 

Eliminado o potencial efeito nocivo da padronização e zelando por não apostar as "fichas" na mesma aeronave, que poderia incorrer no risco de um adversário desenvolver algo melhor, os Estados Unidos posicionar-se-iam com uma frota de caças "imprevisível" e diversa.

Ao invés de estipular requisitos para uma aeronave que irá enfrentar ameaças futuras desconhecidas durante os 25 anos seguintes (ou mais), a USAF pretende apostar em ter aeronaves novas e com tecnologias inovadoras, a serem desenvolvidas e transformadas em algo concreto, a cada cinco anos. 

Um dos objectivos é, também, eliminar as incertezas quanto à ameaça que países como a China podem representar. A China tem alcançado notáveis avanços militares, estando a desenvolver e a integrar novos caças de quinta geração e navios de diferentes tipos e classes a velocidade quase que fulminantes, o mesmo ocorre em literalmente todos os sectores das suas forças armadas.

Suponhamos que "a cada quatro ou cinco anos, surgia um F-200, F-201, F202, aeronaves cujas características e capacidades seriam vagas e misteriosas" (...) Como lidar com uma ameça que não sabe qual é? (...) Sempre tenha um (novo) avião a voar, seja (você) a ameaça" - Will Roper, Executivo de Aquisições da Força Aérea, em declarações para o Defense News

Para adoptar o conceito "Century Series" no desenvolvimento do Domínio Aéreo de Próxima Geração, torna-se vital o desenvolvimento ágil de software por parte dos fabricantes e fornecedores, edificando vectores de arquitectura aberta (sujeitas a actualizações e modificações, prática já comum no referido sector) por meio de "engenharia digital". 

Parelha de caças chineses J-20, de quinta geração
Parelha de caças chineses J-20, de quinta geração

A engenharia digital, em si, não é nova, a indústria usa computadores há décadas, mas só recentemente fornecedores aéreo-espaciais de defesa, desenvolveram as ferramentas de modelagem 3D, capazes de modelar um ciclo de vida completo desde o design, à produção e manutenção. O processo permite não apenas detalhadamente mapear uma aeronave, mas também modelar uma linha de produção e manutenção, simulando em detalhe tarefas como a manutenção e reduzindo custos de operação e desenvolvimento. 70% dos custos, de acordo com Will Roper, Executivo de Aquisições da USAF, são parte constituinte do ciclo de vida das aeronaves de caça modernas.

A Boeing, no processo de desenvolver o TX, um novo caça de instrução de uma parceria com a sueca SAAB, poupou, em cerca de 80%, nos custos de trabalho manual de fabrico e montagem, por meio da chamada "Tecnologia Digital". No entanto, desenvolver um vector para integrar o NGAD, é algo bem mais complexo do que o processo que culminou no TX, um treinador relativamente simples.

Se por um lado a solução talvez não seja "exagerar" no desenvolvimento de plataformas multi-função, como o caso do novo F-35 de quinta geração, processo que levou quase duas décadas, adoptar o estilo "Century Series", talvez também não seja. O referido conceito, implica o pagamento adiantado de maiores somas de dinheiro aos fornecedores, para aeronaves com um potencial estrutural inferior.

F-35
F-35

Ao invés de projectar caças para uma hipotética vida útil de 8.000 horas ou mais, a norma seria agora algo em torno de duas mil. Uma vantagem, segundo Roper, pois permitiria simplificar a fase de testes de fadiga, assim como dos trabalhos necessários para a manutenção operacional dos aviões. A norma passaria a ser a aquisição de um novo vector, ao invés de modernizações de meia vida, prática comum nos dias de hoje por todo o mundo,

Já o Congresso Americano, não aparenta estar muito convencido, congelando a aprovação orçamental para o NGAD e recomendando uma redução de 50% dos fundos. Embora haja uma aprovação geral quanto à sua relevância, a mesma não parece esclarecer as dúvidas relativas às mais recentes abordagens no programa. 

Múltiplas empresas estariam contratadas para projectar aeronaves, principalmente nos estágios iniciais de desenvolvimento, que forçosamente culminaria num elevado esforço financeiro. Esforço financeiro que é, no entanto, inevitável, à media que outras nações, aliadas, "menos" aliadas e potencialmente adversárias, estudam e iniciam os seus próprios projectos.


Alguns conceitos de 6ª geração

  • Sistema de Combate Aéreo do Futuro (França / Espanha / Alemanha)


  • Tempest (Reino Unido / Itália)


  • Vídeo da Força Aérea Americana, onde esta "sugere" o futuro depois de 2030


Artigo sujeito a edição

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