A Guerra na Líbia - parte I

12-06-2019

Vista geral de Tripoli em 1980 /direitos identificados na imagem
Vista geral de Tripoli em 1980 /direitos identificados na imagem

Kadhafi, de revolucionário a ditador

Em 1969, Muammar Mohammed Abu Minyar al-Kadhafi, de 27 anos, ao lado de Mahmud Sulayman al-Maghribi, líder das "forças revolucionárias", toma o controlo da Líbia. Os rebeldes invadiram a capital Tripoli, destituindo o governo do rei Idris I.

Uma vez no comando, Kadhafi busca forças no povo, que estava descontente pela falta de melhorias sociais, face à quantidade de petróleo vendido, pelo regime anterior, para a Europa e Estados Unidos. 

Influenciado pelo "pan-arabismo" do líder nacionalista egípcio Nasser, e sob o lema "liberdade, unidade e socialismo", Kadhafi copia a constituição do Egipto, planta o sentimento anti-Estados Unidos e quebra alianças com ingleses e americanos.

O novo líder da Líbia proíbe as bebidas alcoólicas, bordéis, fecha bares "ocidentalizados", impõe o total respeito pelas leis morais do islamismo, expulsa judeus e também estrangeiros provenientes dos EUA, assim como sanciona a venda de petróleo para este país.

Kadhaffi e Nasser
Kadhaffi e Nasser
Kadhaffi em 1970 /direitos na imagem
Kadhaffi em 1970 /direitos na imagem

Em 1970, morre Abdel Nasser, conhecido por patrocinar grupos e países anti-americanos e anti-israelitas. Kadhafi, inconformável com o falecimento, decide dar continuidade ao trabalho de Nasser, dando apoio a grupos e facções que partilhem as mesmas ideologias do homem que idolatrava, nomeadamente os "Panteras Negras", o "Fatah" e "Setembro Negro".

A sua política centra-se em torno da união do mundo árabe, com sonhos de uma espécie de Estados Unidos do Islão e a fusão dos estados árabes.

Em 1973 ocorre uma fracassada tentativa de golpe de estado e dois anos depois, Kadhafi supera uma nova tentativa de golpe. O ditador publica então o Livro Verde, uma Constituição, mas nem tanto, baseada numa filosofia política alternativa ao socialismo e capitalismo, combinada com valores do islamismo. 

Durante o seu governo, a Líbia chega mesmo a crescer graças às vastas receitas provenientes do petróleo, o que permite a Kadhafi sustentar programas sociais, que dão à Líbia, independentemente da pressão das sanções internacionais, o maior Índice de Desenvolvimento Humano do continente africano. São também aplicadas medidas no sentido de aumentar a participação das mulheres na sociedade e de dar mais direitos aos negros. A dívida pública de Tripoli, por esta altura, é mesmo considerada a menor do mundo.

Os críticos, apesar do visível progresso social e crescimento económico, acusam o ditador de concentrar o poder e as riquezas nas mãos de negócios e empresas sob seu controlo ou sob gestão da sua família. A sua fortuna pessoal é já estimada em mais de 200 mil milhões de dólares, com muita da população a viver na pobreza. 

Vista de Tripoli, provavelmente nos anos 80/90
Vista de Tripoli, provavelmente nos anos 80/90

Na década de 80, não estivesse já a sua imagem extremamente prejudicada junto do ocidente, envolve a Líbia em diversos conflitos armados, adquire armas químicas e, alegadamente, inicia preparativos para o desenvolvimentos de armas de destruição em massa. O país recebe como resposta sanções da comunidade internacional.

Em 1981, um confronto aéreo sob os céus do Golfo de Sidra, entre caças líbios e americanos, resulta no abate de duas aeronaves de Tripoli. Em 1986 e 1989, novos incidentes militares ocorrem na região, com a Líbia como protagonista.

Em 1986, após um atentado numa discoteca de Berlim, os EUA lançam ataques aéreos contra as cidades de Tripoli e Bengasi e impõem mais sanções económicas contra o país. No final da década de 1980, o governo líbio foi acusado de envolvimento nos atentados contra aviões da Pan Am e da UTA, o que motivou, em Março de 1992, à imposição de sanções também pela ONU. Bombardeamentos americanos matam a sua mulher e filha, levando Kadhafi a distanciar-se do apoio ao terrorismo.

Rua em Tripoli, após suposto ataque da OTAN em 2011
Rua em Tripoli, após suposto ataque da OTAN em 2011

Com a captura, em 2003, do presidente iraquiano Saddam Hussein, Tripoli anuncia que a Líbia irá cancelar todos os programas relativos a armas de destruição maciça, inclusive convidando inspectores estrangeiros, de forma a verificarem que dizia a verdade. Na altura o país do norte de África é retirado da lista de apoiantes do terrorismo, tendo também a ONU retirado as sanções impostas.

A Líbia tenta uma aproximação com o ocidente, por meio da colaboração em áreas sociais, económicas e militares, inclusive com a exploração de petróleo líbio por empresas estrangeiras. Embora inicialmente bem sucedida, essa aproximação terá vindo tarde demais.

Revoltas populares assolam o Norte de África e Médio-Oriente, em 2011 a tendência chega ao país de Kadhafi. O ditador, prontamente toma as suas medidas, tratando de expulsar lideranças duvidosas do exército, reduzir o preço de bens alimentares e libertando prisioneiros, como forma de reduzir a sua impopularidade. Mas de pouco lhe serve.

A 17 de Fevereiro de 2011, protestos são registados em todo o país, que são imediatamente reprimidos de forma brutal por forças do regime. Muammar Mohammed Abu Minyar al-Kadhafi, é acusado de genocídio, e tenta reparar a sua imagem com a criação de uma comissão, para investigar episódios violentos durante os protestos, sem tempo, no entanto, de ser implementada.

Intensificam-se as manifestações contra o governo, escalando a situação para o estado de guerra civil. Os constantes combates entre forças leais e contrárias ao regime, transformam as principais cidades líbias em cenários desoladores.

Kadhaffi estava a perder o controlo do país, principalmente a leste, na zona mais pobre. O governo, cada vez mais fragmentado com a fuga de autoridades e ministros, não perdoa. O ditador diz que os rebeldes são da al-Qaeda e que vai caça-los, um a um, "rua por rua, casa por casa".

As ofensivas impiedosas do estado começam a surtir efeito, resultando no cerco do coração da revolta, Bengasi. A oposição parecia derrotada, "sem piedade" diz o ditador.

Rebeldes celebram a captura de um tanque em Bengazi, no leste da Líbia, em Março de 2011 /foto: direitos identificados na imagem
Rebeldes celebram a captura de um tanque em Bengazi, no leste da Líbia, em Março de 2011 /foto: direitos identificados na imagem

17 de Março de 2011, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprova a resolução "1973", autorizando os Estados Membros a tomar "medidas necessárias para proteger civis e áreas povoadas na Líbia". Dois dias depois, forças aéreas e navais de toda a OTAN (Organização do Tratado Atlântico Norte), lideradas por França, Estados Unidos e Reino Unido, atacam alvos militares do regime e põem fim ao cerco de Kadhaffi e à sua supremacia. Os Rebeldes estão definitivamente na ofensiva e contam agora com uma nova representação unificada, o Conselho Nacional de Transição - CNT.

Juntos, a OTAN, o CNT e o regime de Kadhaffi, foram responsáveis pelo massacre de milhares de civis, mortos por danos colaterais. 

Em Agosto, as tropas do CNT conquistam a capital com o apoio da OTAN, forçando Kadhaffi, familiares e membros do governo a fugirem. O ditador líbio, caiu.

20 de Outubro, depois de oito meses de guerra, Muammar al-Kadhaffi é capturado, ferido e arrastado, ainda vivo, pelas ruas como "troféu". O ditador líbio, nos comandos do país durante 42 anos, foi depois brutalmente assassinado.

Portugal Defense News ...and global 

por continuar... aguarde publicação da parte II

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