Os novos helicópteros da Força Aérea Portuguesa e o fim do Lobo Mau

29-05-2019

Os dois primeiros AW119 recebidos em Fevereiro
Os dois primeiros AW119 recebidos em Fevereiro

Início do fim para  o veterano, diga-se também "Zingarelho",  ou "Lobo Mau" e "Canibal", Aloutte III.

Dia 16 de Fevereiro de 2019, 16h30, chegam à base aérea nº11 de Beja, os primeiros dois helicópteros Leonardo AW-119 MKII Koala, destinados a substituir os envelhecidos, honrados e veteranos, Alouette III.

Esses, os Aloutte, foram adquiridos para fazer serviço na guerra colonial, onde foram extensivamente e maioritariamente usados em operações de transporte e assalto táctico, transporte logístico, evacuação sanitária e apoio de fogo. Fizeram o seu primeiro voo a 28 de Fevereiro de 1958 (a contar com os AL II), há 60 anos, mas ainda não é já desta que serão retirados, pois a Força Aérea prevê a sua manutenção em serviço activo até que sejam obtidos os restantes 3 Koala´s.

Alouette III algures em guerra numa das colónias /foto:autor desconhecido
Alouette III algures em guerra numa das colónias /foto:autor desconhecido

Na Guerra Colonial andava armado com canhões de 20mm e, já depois do conflito, com lançadores de "rocket´s". Aos seus comandos faleceram 30 pilotos.

«Os "Lobos Maus 1 e 2" (lobo mau - helicóptero armado) deram protecção aos "Canibais" (helicóptero utilitário de transporte e evacuação) quando da aterragem para evacuação de alguns elementos de "Bombox" (código de forças terrestres) feridos.

Enquanto "Lobo Mau 1" preparava a aterragem dos "Canibais", o "Lobo Mau 2", informado que o IN tinha fugido para Norte, dirigiu-se naquela direcção ao longo de uma picada que apresentava passagem recente de viaturas. (...)

Na Guerra Colonial andava armado com canhões de 20mm e, já depois do conflito, com lançadores de "rocket´s".
Na Guerra Colonial andava armado com canhões de 20mm e, já depois do conflito, com lançadores de "rocket´s".


(...) A meio do percurso e em zona de vegetação mais densa, deparei (me) com um bidão de combustível na berma.

Como me parecesse estranho, voltei ao local e reparei que atrás de uma árvore se encontrava um elemento IN que tentava passar despercebido e que, conforme eu evoluía em torno da árvore, assim se encobria com a mesma.

Fiz alguns tiros quando ele tentou deslocar-se para a mata vizinha e vi que caiu com as pernas partidas, reparando que no local se encontravam mais quatro elementos emboscados. (...)

Canhão de 20mm do "Lobo Mau"
Canhão de 20mm do "Lobo Mau"


Os guerrilheiros desenvolviam tácticas para atacar os helicópteros portugueses, ás vezes com sucesso.
Os guerrilheiros desenvolviam tácticas para atacar os helicópteros portugueses, ás vezes com sucesso.

(...) Depois de bater essa mata, de cerca de quarenta metros quadrados, e que não dava qualquer hipótese de escapar a quem lá se encontrava, ao evoluir para Oeste deparei (me) com mais dois, que alvejei. Estavam tão juntos que foram atingidos pelo mesmo tiro.

Após ter verificado que já não havia qualquer elemento suspeito, fiz um rápido reconhecimento visual na zona e reparei que, pouco abaixo do local onde estava o bidão, se encontrava um morteiro de 120 mm, montado sobre rodas.

Sob o Ultramar /autor desconhecido
Sob o Ultramar /autor desconhecido


(...) Contactei o "Lobo Mau 1" e este mandou seguir o grupo "Leopardo" para a zona. Quando este chegou ao local, um grupo, emboscado, reagiu enquanto retirava para uma mata de palmeiras.

Fiz alguns tiros que feriram mortalmente um desses elementos. Depois de contactar "Leopardo" e de ele me informar que já não havia necessidade da minha presença, regressei à base.» - adaptação, via guerracolonial.org, do relatório de um piloto, de Aloutte III, que comandou uma missão de escolta e protecção, em Março de 1974, durante uma operação realizada por uma unidade de comandos no Norte da Guiné-Bissau.

Alouette III da Força Aérea /foto:autor desconhecido
Alouette III da Força Aérea /foto:autor desconhecido

Se existem "símbolos" da guerra do ultramar, o SUDAVIATION SE-3160 ALIII é sem dúvida um deles, ao lado talvez da espingarda G3 e daqueles "quicos", característicos "bonés de duas abas", que a tropa usava na cabeça.

Os dias de maior juventude já lá vão para o SE-3160, mas a Força Aérea ainda o apresenta no seu site como um "helicóptero muito manobrável e extremamente versátil". Actualmente, até serem definitivamente retirados de serviço os três aparelhos que restam em operação (durante a guerra eram 142), os ALIII são utilizados e estão aptos para acções de assalto, salvamento, evacuação sanitária, resgate no mar, patrulhamento, observação, transporte, e apoio no combate a incêndios.

Alouette III na guerra /foto:autor desconhecido
Alouette III na guerra /foto:autor desconhecido

Os Aloutte III estão obsoletos em comparação com os padrões actuais e a sua assegurada substituição foi anunciada em Outubro de 2018, com a revelação por parte da fabricante italiana Leonardo, da assinatura de um contrato de 20 milhões de euros para o fornecimento de 5 helicópteros utilitários ligeiros AW-119MKII Koala.

Alouette e AW119 voam, lado a lado.
Alouette e AW119 voam, lado a lado.

O AW-119 é um helicóptero monomotor, multi-função, com um rotor principal compósito de quatro pás, projectadas para produzir máxima elevação com o mínimo de ruído, as pás têm "tampas" nas pontas que aliviam os rolamentos "elastoméricos", reduzindo a necessidade de lubrificação. Por toda a estrutura, painéis de alumínio estruturados em forma hexagonal, absorvem ruídos e vibrações, que dispensam a implementação de outros sistemas adicionais.

O motor PT6B-37A do AW119 fornece altas margens de potência e resistência, a hidráulica, sistemas de estabilidade e caixa de velocidades são semelhantes às do bimotor AW-109 de semelhantes dimensões, helicóptero no qual o 119 é baseado, partilhando inclusive o mesmo cockpit e cabine de voo. O AW-119 é essencialmente uma versão mono-motora mais barata e acessível, um "low-cost" da anterior variante 109.

AW-119
AW-119

Uma extensa variedade de equipamentos, ferramentas e sensores podem ser opcionalmente acopladas no aparelho; estes incluem um guincho externo, gancho de carga duplo, um par de comandos de voo, esquis de neve, altifalantes, luzes de busca, equipamentos de flutuação de emergência, pára-brisas reforçado, sistemas de protecção contra cabos de electricidade, baldes e tanques de combate a incêndios, câmara de infra-vermelhos, e dois tanques extra de combustível, a serem instalados junto dois três localizados como padrão atrás dos assentos da cabine, aumentando a autonomia para 6h de voo.

O modelo português está caracteristicamente equipado com um guincho opcional e trem de aterragem do tipo "patins", com capacidade de instalação de flutuadores para a missão de busca e salvamento em ambiente marítimo. Para esta missão em particular, pode ainda ser equipado com um guincho e farol de busca, a aeronave está também apta para missões nocturnas por meio do uso de óculos e sensores para o efeito.  

AW-109 Sueco
AW-109 Sueco
AW-109, no qual é baseado o AW-119
AW-109, no qual é baseado o AW-119

Tem a capacidade de transportar até sete passageiros (além do piloto), ou uma maca e cinco passageiros, ou ainda 1400Kg em carga suspensa, onde se inclui um balde para o combate a incêndios rurais. Vão cumprir, junto da Esquadra 552 Zangões, as missões de instrução básica e avançada de voo, busca e salvamento, evacuação sanitária, transporte, patrulhamento, observação e apoio ao combate aos incêndios rurais.

As Forças Armadas juntam assim ao serviço mais uma das variantes "AguestaWestland" da fabricante Leonardo. Para além dos novos AW-119, a Força Aérea Portuguesa já opera 12 helicópteros médios-pesados AW/EH-101 Merlin e a Marinha conta com 5 Westland Super Lynx MK.95, ambos da imprensa italiana.   

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AW-119 MKII Koala - Características tendo em conta a versão portuguesa e os dados fornecidos pela Força Aérea:

  • Função: Helicóptero Utilitário Mono-motor 
  • Fabricante: Leonardo (antes Finmeccanica, AgustaWestland )
  • Introdução: 2000, primeiro voo em 1995
  • Custo Unitário: Cerca de 3 milhões de euros
  • Quantidade fabricada globalmente: cerca de 300
  • Comprimento: 12,98 metros
  • Altura: 3,56
  • Diâmetro: 10,83 metros
  • Velocidade Máxima: 267Km/h
  • Alcance: 990km/
  • Autonomia Máxima: 04h00 (06h00 com tanques extra)
  • Peso Vazio: 1840Kg
  • Peso Máximo na Descolagem: 2850Kg
  • Carga Externa Suspensa: 1400Kg
  • Macas: 1 maca + 5 passageiros
  • Tecto Máximo: 6096m
  • Passageiros: 6 a 7
  • Tripulação: 1 a 2
  • Combustível: 710Lts
  • Entrada em serviço na Força Aérea Portuguesa: 2018

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AW-109, base pela qual o 119 foi desenvolvido - Características (variáveis conforme a versão, sujeitas a imprecisões)

  • Função: Helicóptero Utilitário Bimotor  
  • Fabricante: Leonardo (antes AgustaWestland)
  • Introdução: 1976, primeiro voo em 1971
  • Custo Unitário: cerca de 6,5 milhões de euros
  • Quantidade fabricada globalmente: Impreciso, diversas variantes, varia conforme versão
  • Comprimento: 11 metros
  • Altura: 3,50 metros
  • Diâmetro: 11 metros
  • Peso Vazio: 1590Kg
  • Peso Máximo de Descolagem: 2850Kg
  • Velocidade Máxima: 311Km/h Cruzeiro: 285Km/h
  • Alcance: 932Km

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SE 3160 Alouette III - Características

  • Função: Helicóptero Utilitário Mono-motor
  • Fabricante: Sudaviation (versão portuguesa), depois Sud-Est e Aérospatiale
  • Introdução: 1960, primeiro voo em 1959
  • Custo Unitário: Cessou produção em 1985
  • Quantidade fabricada globalmente: mais de 2000
  • Comprimento: 12,84 metros
  • Altura: 2,97 metros
  • Diâmetro: 11 metros
  • Velocidade Máxima: 209 km/h
  • Alcance Máximo: 460 km
  • Autonomia: 02h30
  • Tecto Máximo: 6500 metros
  • Peso Vazio: 1243 km
  • Peso Máximo na Descolagem: 2100 kg
  • Carga Externa Suspensa: 750 kg
  • Passageiros: 5 a 6
  • Tripulação: 1 a 2
  • Macas: 2
  • Combustível: 550Lts
  • Entrada em serviço na Força Aérea: 1963

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