RFA Wave: Uma opção para a Marinha Portuguesa?

01-02-2020

RFA Wave Knight, da "Royal Fleet Auxiliary" do Reino Unido
RFA Wave Knight, da "Royal Fleet Auxiliary" do Reino Unido

O único navio abastecedor da Marinha Portuguesa, o NRP Bérrio, vai ser abatido. Inspecção profunda ao navio revelou inviável qualquer intervenção com vista à sua manutenção operacional.

A Marinha Portuguesa vai perder o seu único navio reabastecedor, NRP Bérrio, depois que inspecções minuciosas revelaram ser desaconselhável a continuidade dos planos da armada, que previam a manutenção operacional do navio durante mais 10 anos por meio de uma recuperação profunda. A informação da retirada de serviço deste importante e estratégico navio, foi transmitida na passada terça-feira pelo próprio Chefe de Estado-Maior da Armada, Almirante Mendes Calado.

O navio de apoio logístico da Marinha, viu serviço pela primeira vez no Reino Unido, quando em 1970 foi entregue à Royal Fleet Auxiliary (Marinha Real Auxiliar), um dos braços da Marinha Real (Royal Navy) daquele país, com o nome RFA Blue Rover. Só em Março de 1993 se tornou finalmente o Navio da República Portuguesa (NRP) Bérrio, ano em que foi aumentado ao efectivo em Portugal. Tem portanto cerca de 50 anos a garantir a sustentabilidade logística de duas Marinhas diferentes, transportando e transferindo combustível, água e provisões, aumentando de forma substancial a capacidade de projectar e manter uma Força Naval no mar.

NRP Bérrio, da Marinha Portuguesa, será retirado de serviço sem substituto
NRP Bérrio, da Marinha Portuguesa, será retirado de serviço sem substituto

Com a Marinha agora em busca de alternativas que, até agora, são ainda desconhecidas, uma das opções poderia novamente passar precisamente pela aquisição, em segunda mão, de um navio da Marinha do Reino Unido. 

É sabido que em Junho de 2018, a Marinha Real Britânica comunicou, à Marinha do Brasil, a possibilidade de vir a retirar de serviço um dos dois navios logísticos da Classe "Wave", constituída pelo RFA Wave Knight e RFA Wave Ruler, na altura com apenas cerca de 15 anos de serviço. Tal comportamento da parte dos ingleses, foi entendido por aquele país da América do Sul como uma sondagem em busca de um potencial comprador.

A aposentação prematura destes navios por parte da Royal Navy estaria inserida como parte do esforço inglês na reestruturação das Forças Armadas com vista a viabilizar o seu dispendioso processo de modernização, que forçosamente obriga à concentração de verbas em projectos de maior relevância estratégica, que são constituidores de despesas altíssimas. A entrada em serviço do segundo porta-aviões HMS Prince of Wales da classe Queen Elizabeth, assim como a incorporação dos caças F-35B, os programas de submarinos de ataque e de mísseis balísticos, das novas fragatas "Tipo 26 e 31", assim como de dois novos navios-doca que, por volta de 2030, se prevê substituírem os da Classe Albion, têm representado genuínas crises dentro dos círculos político e militar da Grã-Bretanha.

RFA Wave Knight e Wave Ruler
RFA Wave Knight e Wave Ruler

Em Agosto de 2018, um dos navios da Classe Wave, o RFA Wave Ruler, encontrava-se parado, depois de trabalhos de reparação terem sido feitos, nos estaleiros Cammell Lairde. O navio em bom estado, saído da revisão, estaria impossibilitado de navegar por falta de pessoal e dinheiro, o que veio reforçar que de facto existe a possibilidade de desactivar prematuramente um dos navios desta classe.

No entanto, na mesma altura, o Ministério da Defesa britânico afirmava que, "não tem planos de vender os navios da classe Wave a uma nação estrangeira, assim como não ocorreu nenhum tipo de diálogo nesse sentido com o governo brasileiro". A Marinha Brasileira é uma parceira de longa data e cliente dos ingleses, as suas principais fragatas são de projecto inglês, assim como existe o hábito do país recorrer a compras de oportunidade em ordem a satisfazer as necessidades operacionais dos seus ramos militares.

O principal meio da esquadra brasileira, o Porta-Helicópteros Multi-Propósito PHM Atlântico, foi adquirido aos ingleses em 2018, que o desactivou prematuramente após cerca de 20 anos de serviço e depois do governo também alegar que não havia planos de o desactivar. Ainda assim, conversas no sentido de adquirir uma destas embarcações logísticas, classe Wave, pela Marinha Brasileira, que também se encontra seriamente necessitada, não têm progredido muito mais, significando por isso que embora seja provável que os navios ou um dos navios venha a estar disponível, tal não é para já o caso nem representa a posição oficial inglesa.

Isto também significa que, enquanto nenhuma informação oficial para já indique a disponibilidade destas embarcações, o súbito despertar de interesse de mais uma Marinha parceira, a portuguesa, poderia de alguma forma alterar o posicionamento de Londres. O próprio Bérrio pertencia aos ingleses antes de ser desactivado e vendido a Portugal.

Ainda não estava este artigo por nós terminado, quando há cerca de 13 horas atrás, no Instagram, a Marinha Portuguesa partilhava naquela rede social, uma imagem de um navio logístico Wave a abastecer uma fragata portuguesa da Classe Vasco da Gama, como forma de simbolizar "o Tratado de Windsor estabelecido entre Portugal e a Inglaterra a 9 de Maio de 1386", como sendo "a mais antiga aliança diplomática do mundo". Seria isto uma manobra de anunciar interesse, ou a escolha da imagem foi pura coincidência?

Os navios da classe Wave são unidades relativamente novas, com 196,5 metros de comprimento, 31.500 toneladas de deslocamento carregado, com ampla capacidade de apoiar diferentes tipos de operações navais. São extremamente mais capazes que o velhinho Bérrio, contam com o casco reforçado adequado, cuja ausência representa uma das principais deficiências do NRP Bérrio, conseguindo, para além da sua missão logística de transportar suprimentos e combustível, cumprir com missões de patrulha e até mesmo de anti-pirataria, graças à sua capacidade de operar aeronaves de forma orgânica, assim como à presença de armamento minimamente adequado e, até excessivo para um navio reabastecedor, com duas estações de defesa anti-míssil CIWS Phalanx, sete pontos diferentes para acoplamento de metralhadoras pesadas, assim como dois canhões DS30B de 30mm. 

Independentemente da escolha agora a tomar pela Marinha, o que se sabe é que um dos obstáculos será também o orçamento disponível, que só previa a aquisição de um destes meios em 2027, de preferência até de fabrico nacional.

Artigo sujeito a edição...

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